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sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Making a Murderer e o caso brasileiro da Escola Base

Ano passado eu decidi assistir Making a Murderer. Primeiro veio o choque em conhecer a história de Steven Avery, que vou contar mais abaixo. Depois, me solidarizei com ele. Por último, comecei a refletir sobre Jornalismo e me lembrei do caso Escola Base. Aqui, fiz uma análise entre os dois casos e explico o porquê não gostei dessa série.

ATENÇÃO: contém spoilers da 1ª temporada da série Making a Murderer

Making a Murderer 

Making a Muderer, Steven Avery
Steven Avery na época de sua prisão injusta

A série do Netflix documenta a história real de Steven Avery, morador do condado de Manitowoc, em Wisconsin, preso em 1985 acusado de tentativa de assassinato e agressão sexual. Ele passou 18 anos preso injustamente, até que novas provas concluíram que o responsável pelo crime, na verdade, foi um homem chamado Gregory Allen, que ficou solto por todos os anos em que Avery permaneceu preso. Steven moveu um processo contra as autoridades do condado, a fim de reparar os danos sofridos e evitar que outras pessoas fossem presas injustamente. Mas então, uma fotógrafa, chamada Teresa Halbach foi assassinada e seus restos mortais foram queimados e encontrados no ferro-velho Avery ao lado do trailer onde Steven morava. Além disso, ela comprovadamente esteve no ferro-velho fazendo uma reportagem fotográfica naquele dia. Avery foi preso e condenado à prisão perpétua por isso, enquanto se declara inocente. Uma das principais provas veio de seu sobrinho Brendan Dassey, que confessou ter ajudado o tio no crime. Nos vídeos das entrevistas dos investigadores com Dassey, vemos claramente que ele é uma pessoa mentalmente abalada. Seus advogados dizem que ele é portador de deficiências cognitivas.
Tudo aponta, na série, para que Avery novamente tenha sido acusado falsamente, com uma provável armação das autoridades contra ele. 

Mas, sempre tem um “mas”

A série é tendenciosa. Não quero com isso dizer que Avery é culpado, ele pode sim ser inocente. Aliás, o princípio básico de todo julgamento é partir do ponto de que o acusado é inocente, até que se prove o contrário. Só que, ao assistir a série, pessoas não familiarizadas com o jornalismo investigativo podem não enxergar o quanto o programa é parcial. Temos que ter em mente o seguinte: o julgamento foi longo e, mesmo em 12 episódios, não foi mostrado na íntegra. Não sabemos o que convenceu os jurados de que Avery era culpado. Não sabemos se de fato houve manipulação. O que mais confunde aqui é o que não é mostrado! As cenas são editadas em sua maioria para mostrar as partes do julgamento que favorecem Avery e torna o lado do acusador um verdadeiro vilão a ser combatido. 

A cobertura da mídia em casos criminosos pode ser perigoso

Um documentário em formato de série que põe um lado como superior ao outro pode nos enganar. As cenas não foram montadas, tudo que aparece lá realmente aconteceu. Mas elas foram editadas: foram selecionadas apenas as partes necessárias para montar uma defesa para Avery. Temos que desconfiar daquilo que não vemos. Quando um lado é menosprezado em prol do outro, há uma parcialidade, ou seja, é “puxado sardinha para um lado”, o que pode nos convencer de algo que não é real. Já ouviram falar no caso da Escola Base?

O Caso Escola Base 

Escola Bse notícia
Uma das manchetes da época, noticiando o caso da Escola Base

Em setembro de 1992, os casais Icushiro Shimada e Maria Aparecida Shimada e Paula Milhin de Monteiro Alvarenga e Maurício de Monteiro Alvarenga se associaram e compraram uma pequena escola, com apenas 17 alunos matriculados, localizada no bairro da Aclimação, pertencente ao distrito da Liberdade, próximo ao Centro de São Paulo. Juntos, eles investiram em melhorias para a escolinha, com trabalho recompensado: no início de 1994, apenas dois anos depois da compra, a escola já contava com 72 alunos. 

No dia 27 de março de 1994 surgiu uma denúncia contra os dois casais e mais duas pessoas, acusando-os de abusar sexualmente de crianças de apenas quatro anos, estudantes da escola.

Como as denúncias ocorreram

Lúcia Eiko Tanoue Chang brincava com seu filho de quatro anos quando ele começou a fazer movimentos sexuais. A mãe questionou a atitude do filho que, embora relutante, confessou que tinha visto isso em um vídeo na casa de outro coleguinha, filho do casal Saulo e Mara da Costa Nunes. Mas quem tinha levado a criança até a casa? O pequeno disse que tinha ido durante o horário de aula, numa Kombi dirigida por Icushiro. A criança ainda contou que ele e outra amiguinha, filha de Cléa Parente de Carvalho, tinham sido fotografados sem roupa pelos donos da Escola Base. Lúcia e Cléa então prestaram queixa contra os três casais na 6ª Delegacia de Polícia, na zona sul de São Paulo. O delegado de plantão no dia ordenou uma busca, que foi infrutífera, no apartamento de Saulo e Mara. Lúcia e Cléa, indignadas com o resultado, procuraram a imprensa e expuseram o caso. O Jornal Nacional foi o primeiro meio de comunicação a noticiar, no dia seguinte, que seis pessoas eram acusadas de promover orgias infantis. A imprensa brasileira, sem apurar o caso, condenou os acusados antes de eles terem a chance de depor para a polícia.

Uma rápida análise sobre a cobertura midiática no caso Escola Base

Meios de comunicação decidiram publicar o caso no melhor estilo “diz-que-me-diz”, sem investigação nenhuma, cobrindo-o com sensacionalismo. Outra surpresa caiu nas mãos de repórteres de todo o país: o resultado do exame feito pelo IML em uma das crianças, dizia que ela tinha lesões no ânus que eram compatíveis com a prática de atos libidinosos. Mais notícias acusadoras surgiram. Só que, em poucos dias, o IML falaria novamente, afirmando que os exames na verdade tinham dado inconclusivos e que as lesões poderiam vir de algum problema intestinal. Não houve apuração jornalística nenhuma, a primeira nota do IML e as afirmações precipitadas do delegado responsável pelo caso foram suficientes para a imprensa condenar os acusados.
Somente no final de junho começaram a surgir matérias na mídia que assumiam que não haviam provas suficientes para condenação. Na parte jurídica as acusações foram apontadas como infundadas. Mas daí o inferno na vida dessas pessoas já estava feito: a escola foi depredada e teve que ser fechada, as casas dos suspeitos também foram destruídas, os acusados foram ameaçados de linchamento e morte, tendo de se esconder como fugitivos. Anos depois, todos tiveram algum problema de saúde por causa de todo o sofrimento que passaram e até hoje não receberam toda a indenização a que tem direito.
Aqui ocorreu o contrário do caso Avery – que foi colocado como inocente pela mídia (no caso, o documentário). Na Escola Base, seis pessoas foram acusadas sem prova nenhuma pelos jornais brasileiros. Da mesma forma, a sardinha foi puxada para um lado só, percebem? 

CONCLUSÃO

Embora a série traga a presunção da inocência para Steven, é muito perigoso mostrar apenas um lado da história. Notícias que surgiram depois do lançamento da série nos mostram a ex noiva de Avery dizendo que ele não é inocente e que atuou no documentário, inclusive. Não sabemos o porquê dela ter dito isso, nem a verdade, mas o pouco espaço para a acusação de Avery nos faz acreditar cegamente na inocência dele.

No segundo caso, condenaram os inocentes também sem ouvirem seus lados na história, destruindo suas vidas. Paula, a professora, nunca mais conseguiu emprego na área que amava. Ela sofre com depressão e se separou de Maurício Alvarenga, que sofreu com Síndrome do Pânico e tinha medo de sair na rua. Icushiro Shimada faleceu em 2014 após um infarto. Sua esposa, Maria Aparecida, faleceu em 2007, vítima de câncer. Ambos morreram sem receber toda a indenização que esperavam. Saulo e Mara Nunes enfrentaram muitos problemas financeiros por conta da contratação de advogados.

Esses são os perigos de se expor apenas um lado do caso, de ser parcial em casos de crimes reais. Nós não sabemos se Avery é inocente ou não. O fato aqui é que ele foi condenado e nós sabemos que a série, nem se demonstrasse inclinação para cobrir todos os ângulos, teria tempo suficiente para isso. São 30 anos de história! Hoje, a Netflix lançou a segunda temporada da série, mesmo assim não há tempo para cobrir tudo que se precisa.

Vidas são destruídas por causa da imparcialidade da mídia mundial. Enquanto jornalistas e editores não se atentarem para corrigirem dentro de seus veículos falhas como essas, somos nós, consumidores de todos os tipos de veículos de comunicação, que devemos questionar todos os ângulos de uma história. Antes de acreditar cegamente na nossa mídia, está na hora de questionarmos ela.

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Por que somos tão inseguros?

por que somos inseguros?

Passeando pelas timelines das redes sociais volta e meia me deparo com análises ou piadas sobre a questão “Capitu traiu Bentinho?”. É curioso pensar que um livro publicado em 1989 ainda tem o poder de causar rebuliço nos dias de hoje, tamanha é sua fama. Mas não, eu não estou aqui pra falar sobre a questão Capitu. Quero falar sobre o problema em ter vergonha de se expor. Pensa comigo, com certeza Machado de Assis teve episódios de ansiedade, insegurança e medo, afinal, todo ser humano tem essas coisas. E se num desses momentos, Machado sentisse medo de não ser lido ou receio de seu texto não estar bom o suficiente? Se esses sentimentos o tivessem paralisado e o impedissem de entregar a primeira versão de Dom Casmurro, nós não conheceríamos Capitu e Bentinho hoje. Se Machado fosse inseguro ao extremo (e talvez ele fosse, mas dava algum jeito de vencer isso), jamais teríamos outros tantos livros incríveis como Memórias Póstumas de Brás Cubas ou Quincas Borbas.

Mas Machado foi meu primeiro exemplo. Assim como Dom Casmurro, que é leitura obrigatória para vestibulandos, também estão livros como O Guarani, de José de Alencar. E o José, será que teve uma vida linda, sem medos, totalmente seguro de si, de seu trabalho, de sua escrita?

Vamos chegar no nosso tempo, só para dar um exemplo atual de uma pessoa que causa tanto tumulto na internet quanto Capitu: Elena Ferrante com sua tetralogia napolitana. Será que Ferrante tem insegurança ao escrever? Será que, como eu quando escrevo, Elena acha tudo lindo e fantástico e dois meses depois relê e acha tudo uma grande matéria fecal? Ou será que esses autores citados são alienígenas e nunca tiveram medo de entregar seus textos, pois estavam plenamente conscientes da sua genialidade?

Colagem por Graziele Lima para o blog Eu e Minha Estupidez

O ponto onde quero chegar é, tomando como certo que nenhum deles é um alienígena, se essas pessoas não tivessem vencido suas inseguranças quando elas surgiram, não teríamos hoje essas obras e nem estaríamos 100 anos depois discutindo uma possível traição ou postando fotos de trechos de conversas entre Lila e Lenu no Instagram. E a gente, que escreve mas não tem essa fama toda, será que não está se sabotado demais com relação aos nossos textos? Será que não estamos deixando nossa insegurança vencer, em vez de mostrar ao mundo nossa cria?

Eu sei que não sou a única que escreve e não publica por medo, insegurança, vergonha. Conversei com uma amiga que é poeta e escritora e vi que a insegurança em mostrar o que escrevemos não é só minha, é de todo mundo nesse ramo. Ela, por exemplo, escreve coisas lindas e inspiradoras. Mas é muito fácil pra mim, que estou lendo e sendo impactada com o trabalho dela falar isso. Ela perceber o quanto uma vida pode ser tocada se entregar o texto para a internet ou qualquer outro meio, são outros 500, percebem?

Nós deixamos nossa insegurança nos dominar. Por que não paramos e pensamos, como citado nesse texto, que nossas ideias podem parecer óbvias pra gente, mas são incríveis para os outros? Um dia vamos reler aquele texto publicado e encontrar erros, certamente, mas tudo bem, isso só mostra que evoluímos enquanto escritores e não que aquela obra não valeu para alguém.

Colagem por Graziele Lima para o blog Eu e Minha Estupidez

A gente tem medo de arriscar. E eu sei que é difícil, porque enquanto escrevo isso, tenho três livros escritos e guardados só pra mim. Mas me assusta pensar em quantos novos Machados de Assises estamos perdendo. Não precisa nem ser tão genial quanto o Machado, mas poderia ter uma obra impactante, que marcaria os próximos séculos. Quantas Elenas Ferrantes se escondem em pessoas que simplesmente tem medo de mostrar suas escritas as vezes até para um amigo próximo? A gente precisa parar. Só que... eu não sei como. Eu realmente não sei.

Esse texto termina assim, sem solução nenhuma. Se você tiver uma, por favor, ajude essa galera que escreve e que precisa. Salve os Machados, os Josés e as Elenas, por favor. E salve a mim, que preciso aprender a não me sabotar mais.


*PS.: usei colagens feitas por mim, representando momentos de insegurança, para ilustrar esse texto, achei uma maneira não convencional de ilustrar a postagem, ao mesmo tempo em que eu tenho esse momento de vulnerabilidade por postar arte minha aqui, além dos textos.*

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Admiração é um sentimento nobre


Não há nada como admirar alguém. Pensa comigo: gostar é tão fácil, basta simpatizar com a pessoa e pronto, já podemos dizer que gostamos. Amar implica em conhecer melhor esse alguém e desenvolver um sentimento mais profundo, onde até os defeitos são dignos do nosso afeto. Agora admirar é outro nível. Admiração não é só gostar, não é só amar, é ter um sentimento que enaltece a pessoa em questão, é coloca-la em um pedestal bem alto. É expressar sincero respeito, é veneração pura, é sensação de êxtase com a pessoa. É um sentimento nobre!

Não admiramos quem não nos inspira e, para nos inspirar, a pessoa tem que ter tido sucesso em alguma coisa. Isso não significa que ela precisa ter conquistado alto poder aquisitivo, ter o carro do ano ou possuir um iate para usar em sua ilha particular. Às vezes sucesso é passar em uma prova para a qual a pessoa perdeu noites estudando; ou pode ser juntar as moedinhas que encontra pela casa e ver que, no final do dia, se tem dinheiro suficiente para comprar pão pra família toda. Admiração é uma sensação grande, quase santa, mas nem sempre precisamos de motivos imensos para nutrir esse sentimento por alguém – até por que, estamos cansados de saber, as maiores riquezas residem em pequenos detalhes

Ao mesmo tempo em que admiramos também queremos ser admirados. Uma matéria do Correio Braziliense fala sobre uma pesquisa que associa esse sentimento com aquilo que compartilhamos na internet. Sabia que quando decidimos compartilhar um post, seja ele texto ou imagem, acionamos uma parte do cérebro que tem o desejo de despertar a admiração alheia? Ou seja, nós queremos ser admirados pela nossa opinião, o que não me parece grande novidade, mas esse estudo talvez possa explicar aquela velha história de compartilharmos apenas os momentos bons no Instagram. Não queremos expor nossas dificuldades e sim nossas vitórias, isso atrai mais as pessoas e causa maior comoção – logo, é mais fácil de conquistarmos a admiração dos outros. 
 
Só não se esqueça que ninguém é perfeito, então, independente de quem seja seu alvo de admiração, com certeza essa pessoa possui defeitos. E tudo bem! Não conheceríamos o bom se nunca tivéssemos experimentado o ruim, certo? 
 
Esse post faz parte do Desafio Imagem/Palavra do grupo Interative-se!
Desafio Imagem/Palavra do grupo Interative-se!

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Além da série: Girlboss e Dear White People

Quando eu gosto de alguma série, costumo ir atrás de outros materiais disponíveis sobre ela, como livros, HQ's ou filmes que a originaram. Já demonstrei isso aqui no post "Mini overdose de Os Bórgias" e hoje trago duas outras séries que assisti recentemente e busquei outras alternativas de conhecer a história: Girlboss e Dear White People!

Britt Robertson interpreta Sophia Amoruso

Girlboss (série e livro)

Quando a série Girlboss estreou no Netflix, eu fui correndo assistir. Antes de mais nada, um pequeno resumo: o programa e o livro falam sobre a história real de Sophia Amoruso, que muito jovem criou uma loja no ebay chamada Nasty Gal para vender peças vintages, que acabou crescendo muito em vendas e sucesso. Me apaixonei pela serie em um primeiro momento, mas como era de se esperar, quando todo o “boom” da estreia passou, eu comecei a prestar atenção nos problemas. A Sophia da série é inconsequente e mesquinha, não vendo problemas em afastar os outros para conquistar seus objetivos, em roubar por puro hobbie ou em desprezar quem pensa diferente dela – como podemos ver nas cenas com os compradores vintages. Mas o figurino ainda é de tirar o fôlego e, vocês sabem né, tem roupa bonita já me ganha... Além disso, há todo um incentivo para você persistir nos seus sonhos e dicas valiosas de sucesso comercial no seriado.

E foi por isso que eu furei minha lista de livros e trouxe #GirlBoss (que já estava lá para ser lido quando desse tempo) para o topo. O livro autobiográfico difere bastante da série, principalmente por não existirem personagens como Annie (a melhor amiga de Sophia na série) – e por nos mostrar que a mãe de Amoruso não a abandonou na vida real. O livro é mais pé no chão e menos inconsequente que a série, nos dá muitas dicas sobre empreendedorismo e nos dá um parâmetro maior sobre a Nasty Gal. O grande problema aqui foi saber, depois de ler o livro, que Sophia nunca foi tão respeitosa com seus funcionários como ela conta. Se aqui valer o discurso “faça o que eu digo, não faça o que eu faço”, então a leitura vale a pena.

Dear White People, série da Netflix

Dear White People (série e filme)

Antes de tudo, vamos a uma breve sinopse: ambas as obras discorrem sobre movimentos de lutas negras, dentro de uma Universidade (Winchester) de predominância de elite branca, com seu grande ápice em uma festa blackface – que nos mostra escancaradamente os horrores do preconceito.

O seriado, por ter um tempo maior, faz um mergulho nos personagens principais e dá mais espaço para questões singulares – que no fim englobam um todo. Um dos meus personagens preferidos, o estudante de jornalismo Lionel, tem um destaque muito maior na série do que no filme, por exemplo. Ainda que eu não seja apta para falar sobre racismo, me sinto segura em afirmar que o filme me trouxe mais impacto nas questões raciais do que a série. Elas chegam em nós, espectadores, de maneira mais explícita, nos acertando em cheio. Por mais que nos esforcemos para que o racismo não exista, há muita coisa enraizada em nossa sociedade e que nos parecem “normais” por pura ignorância, que ferem e ofendem pessoas negras (e que precisa ser trabalhado urgentemente). Dear White People nos ajuda a enxergar isso. Aqui, um ponto perspicaz entre filme e série, é a presença no seriado de uma cena em especial, que não vou citar para evitar spoilers, que me arrancou lágrimas. Quem já assistiu, vai saber do que se trata: envolve o personagem Reggie e uma discussão em uma festa. Outra coisa que surgiu na série foi o poema (derivado da cena que citei), escrito pelo mesmo personagem, que mexe profundamente com qualquer pessoa, até mesmo aquelas que como eu não entendem muito de poesia ou não sofrem com racismo. É profundo, é triste e é, infelizmente, real.

Lionel de Daer White People
O Lionel da série do Netflix, interpretado por Deron Horton. No filme, o papel dele foi dado para Tyler James Williams.

O racismo é real e assistir Cara Gente Branca é como retirar uma venda dos olhos. É como no caso da festa com o uso de blackface - onde pessoas brancas se "fantasiam" de uma pessoa negra. Uma fala que reparei no filme e não lembro se também existe na série, é quando um garoto (branco) diz algo como “prova de que o racismo não existe é que estamos fazendo piada com isso”. Na verdade, uma preciosa lição com ambas as produções audiovisuais, é que a prova de que o racismo existe é justamente enxergarmos como natural algo como uma festa blackface. Se você discorda, por favor, assista Dear White People.

E para quem se interessou tem dois textos na revista Ovelha, escritos pela Karoline Gomes, que são infinitamente mais esclarecedores do que essa minha pequena resenha: “Um filme para as queridas pessoas brancas” e “Cara gente branca, esta série não é sobre vocês”.

Vale muito a pena todas as caras pessoas brancas assistirem o filme e a série de coração e mente abertos,  para aprendermos um pouquinho sobre o que não devemos fazer (e até para refletirmos o que podemos fazer para ajudar no combate ao racismo).

quarta-feira, 24 de maio de 2017

A necessidade de uma série como Grace and Frankie

Alerta de spoiler das 3 temporadas de Gracie and Frankie

Grace and Frankie
Grace and Frankie é uma das séries mais bem feitas e necessárias da atualidade, por inúmeras razões. Em primeiro lugar, podemos destacar a forte amizade e cumplicidade entre as duas protagonistas, que tem mais de 70 anos. E não pensem que é uma amizade construída durante anos: embora Gracie e Frankie convivessem há décadas, elas apenas se toleravam, até o dia em que seus respectivos maridos as largaram. Com os cartões de créditos cortados por eles, sem ter para onde ir, as duas se veem obrigadas a morarem juntas na casa de praia que os casais compraram em conjunto. A partir daí, a convivência as aproximou e, embora elas tivessem muitos problemas no começo, o fato de que estavam passando pelos mesmos obstáculos as uniu. Com personalidades opostas – Frankie é toda hippie, cultua vários deuses, é simples, mística, usa maconha, enquanto Grace é entojada, ex empresária, bem sucedida, cristã, nunca se envolveu com drogas (até a terceira temporada) a não ser o álcool – as duas mostram que os diferentes podem sim conviver num mesmo espaço e se complementarem, no lugar de se dividirem. Embora a série seja de comédia, as duas não formam aquelas personagens loucas e clichês desse tipo de programa, pelo contrário, mostram um lado maduro de mulheres com idades mais avançadas, que se redescobrem ao se verem sem seus maridos nessa altura da vida e passam a recusar que o número da idade as defina. A sociedade pode até julgá-las incapazes, mas elas sabem quem são e o que podem fazer! No decorrer da série, podemos ver a evolução delas, principalmente no âmbito sexual: a redescoberta da sexualidade, as dificuldades de encontrar produtos sexuais próprios para a idade (a ponto de empreenderem juntas nessa área). Grace and Frankie vem para mostrar que o apetite sexual ainda existe, mesmo depois dos 70 anos. Elas descobrem também que ainda podem e devem viver! Saem para um bar, bebem todas, dançam em cima das mesas, flertam com outros homens. E elas bebem muito - não só no bar, mas todos os dias, em casa também. Martíni seco com duas azeitonas é a bebida preferida de Grace. 
Robert e Sol, Grace and Frankie
Os personagens Robert (ex marido de Grace) e Sol (ex marido de Frankie)
Outro ponto importante da série vem com a homossexualidade assumida e vivida na terceira idade, entre Sol, ex marido de Frankie, e Robert, ex marido de Grace. Dois advogados que esconderam por 20 anos um caso e sabe-se lá por quantos mais suas opções sexuais. Ao assumirem, eles vão também descobrindo juntos como lidar com isso.

Outra questão presente no programa é a adoção. Frankie e Sol não têm filhos biológicos, tanto Nwabudike, quando Coyote são adotados. É assunto pouco explorado ao longo das temporadas, com exceção do episódio em que Coyote conhece sua mãe biológica e no fim admite que Frankie é sua verdadeira mãe. O legal de não se falar da adoção constantemente é que isso nos trás uma naturalidade ao tema. Por que deveríamos falar mais sobre esse ato, se no final das contas, os dois são filhos de Sol e Frankie de qualquer forma? O que muda? O sangue? A gestação? Aqui, faz-se valer o velho e verdadeiro clichê de que “pai [e mãe, acrescentemos] é quem cria”. Achei muito interessante a série abordar com tanta sutileza esse tema e ainda assim chamar a atenção para isso. 
Bud, Coyote e Frankie trançando alho
Os irmãos adotivos Bud e Coyote fazendo tranças de alho com a mãe Frankie e seu namorado Jacob.
No quesito mulheres encontramos, além das protagonistas fortes, também as duas filhas de Grace e Robert. De um lado, temos a que escolhe ser do lar e ter quatro filhos (Mallory). Do outro, temos Brianna, que parece ter pavor de relacionamentos sérios, não gosta de crianças e provavelmente não se vê como mãe. Elas mudam muito no decorrer da série e isso nos mostra que ninguém precisa estar no mesmo lugar e com a mesma opinião sempre. Mallory, por exemplo, vê que seu casamento não está mais a satisfazendo. Mas e agora, o que fazer? Ela tem quatro filhos para criar! Será que pais separados não farão as crianças crescerem problemáticas? Talvez seja melhor se sacrificar num casamento sem amor em prol de um bem maior, não é? Não! Ela vai lá e quebra o mito de que mulher tem que aguentar casamento por causa dos filhos e reconhece que, o melhor exemplo que pode dar para as crianças, é ter coragem para se separar, assim como o próprio pai fez. Ela enxerga a felicidade de Robert e quer ser feliz também. E também sabe do erro do pai: demorar 20 anos para se separar da mãe, aumentando o sofrimento de todos. Ela escolhe ser feliz logo e pede o divórcio. 
Mallory e Grace, Grace and Frankie
Mallory ao lado de sua mãe, Grace

Se Mallory sonhava em se casar e ter uma família, sua irmã Brianna é seu oposto e gosta de ser exatamente quem é: uma mulher adulta, solteira, de personalidade forte. Na primeira temporada, vemos Brianna em sua cozinha acompanhada de Bud, que fazia um jantar para um casinho dela. Pois é, Bree não é boa na cozinha, como se espera que as mulheres sejam. Num momento da conversa dos dois, Bud diz que Brianna quer o que todo mundo quer, alguém a esperando quando ela chegar em casa que fique feliz ao vê-la. Para isso, ela responde algo como “verdade, preciso ter um cachorro”. A partir daí, ela não mora mais sozinha: ela adota um cachorro! 
 
Brianna de Grace and Frankie
Ela chega ao ponto de perder um namorado por ser sincera e dizer que não imagina um futuro com ele. E ela sofre com essa perda, mas mantém sua posição mesmo quando o cara pede demissão do emprego por causa disso (pois ela é chefe dele). Mas depois, nós temos uma cena em que Mallory conta para Brianna sobre seu casamento que está desabando. Ao analisarem o tipo ideal de homem para elas, Brianna percebe que perdeu um partido e tanto com o namorado que dispensou. Ela sente falta dele, então, decide ir atrás. Ela não dá indícios de se arrepender da resposta que deu, apenas quer tê-lo de volta nesse momento. Ele já está com outra pessoa, mas isso não faz Brianna ficar se lamentando. Ela está decidida a lutar por ele. Veja bem: ela se arrepende de ter deixado o cara que realmente se importava com ela ir embora, mas ela também sabe que foi fiel a si mesma na hora em que fez isso. Prova de que ela não mudou suas atitudes em prol de um namoro é que ela fala para Frankie, na última cena em que aparece na terceira temporada, que está convencendo-o a deixar os escrúpulos de lado e transar com ela. Ou seja: ela decide usar sua forte personalidade para tentar reconquistar o namorado (ou tê-lo por uma noite? Saberemos na próxima temporada).

Também na terceira temporada, mais uma questão necessária surgiu, ainda sem desfecho: a namorada de Bud fica grávida, mas podemos perceber que não é um filho desejado no momento.

E se eu ainda não te convenci a assistir Grace and Frankie (ou, se você já assistiu, a reconhecer como essa série é essencial para os nossos tempos), preciso fazer outro adendo: nem tudo são mil maravilhas na terceira idade e a série não foge disso. Temos o ataque cardíaco de Robert, seguido de uma cirurgia que poderia matá-lo. Temos tanto Grace quanto Frankie sofrendo com a coluna travada num dia que tinham que comparecer a uma reunião importante de trabalho. As duas ficam no chão por horas, até decidirem ligar para os ex-maridos socorre-las, levantá-las do chão e alcançarem seus remédios. Aí, elas são obrigadas a mudar a estratégia para a reunião: em vez de presencial, foi feita via Skype, para esconderem os problemas na coluna. Nessa cena, podemos ver Robert e Sol embaixo da mesa onde está o notebook por onde as duas estão fazendo a conferência. Robert alcança uma almofada para Grace ao ver que ela estava sentindo dores durante a reunião. Sol tira rapidamente do campo de visão da câmera frascos de compridos. Alí, eles estavam sendo humanos com elas novamente (vamos combinar que traí-las por 20 anos foi bem desumano, certo?). 

Grace and Frankie
Cena onde Grace e Frankie ficam no chão por causa das colunas travadas
E somos confrontados no final da última temporada disponível com um mini-derrame de Frankie, que mostra que ela já havia sofrido, há dez anos, um derrame mais sério. Frankie fica abalada ao ter que cuidar da saúde, abdicando de alimentos, viagens, passeios de balão, enfim. Vemos esse conflito nela e também sentimos seu medo: o artigo que ela leu (dado por Grace) dizia que quem já teve dois derrames com certeza terá um terceiro. Não se sabe em quanto tempo. Talvez em dez anos de novo ou talvez no dia seguinte. O que será que nos aguarda na quarta temporada? Frankie vai escolher se divertir, comer o que tem vontade, viajar, talvez se mudar para o Novo México? Essa opção faria com que talvez sua vida fosse encurtada, em compensação ela aproveitaria mais a vida e o seu jeito Frankie de ser! Ou será que ela vai optar por se cuidar na alimentação, medir constantemente a pressão, tomar remédios e mais remédios e não viajar, não andar de balão, não mudar para o Novo México e ter mais anos para viver, mas sem aproveitar nada do que ela ama? Será que tem como encontrar um meio termo aí? Veremos na(s) próxima(s) temporada(s)!

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

A regra das roupas (ou o que você não deveria fazer na hora de se vestir)


"Morro de vontade de usar tal roupa, mas ela não me favorece". Eu te pergunto: não te favorece por qual motivo? Ela te deixa com calor? Te deixa passar frio? Ou é só porque alguma pessoa que você não faz ideia de quem seja, disse um dia que determinados corpos não poderiam usar determinadas roupas? Pensa comigo, isso é surreal! Você nunca deve ter provado aquela blusa de listras horizontais porque alguém, em algum momento, disse que essa era a regra, que isso te engordava. E você acreditou. Comprou essa ideia e nunca se permitiu provar para ver qualéquié. E veja bem, com isso não estou discordando que existem ilusões de ótica, que linhas horizontais dão a sensação de amplitude, que certas cores nos ofuscam e que outras nos deixam em primeiro plano. A gente sabe que essas coisas existem e que pessoas estudaram muita comunicação visual para ter propriedade de afirmar isso. Eu só quero dizer que você não pode dispensar uma roupa que pode transmitir seu gosto, sua personalidade, seu humor, porque alguém mostrou que ia modificar a maneira como as pessoas enxergam seu corpo. Porque no fundo, ninguém devia estar nem aí para o que os outros veem ou acham que veem. Sou a favor de encarar cada furinho de celulite que pode ser escondida com calça mais solta ou com cores escuras, como marcas que significam que você viveu aquilo! Se eu tenho estrias, pode ser porque em alguma época comi demais por causa de um transtorno alimentar e engordei, depois emagreci, depois engordei de novo. Pode ser que passei por uma gravidez. Pode ser porque amo comer muita gordura. É MINHA HISTÓRIA e eu não deveria me envergonhar dela. Xô te contar: todo mundo tem estrias, celulite, um culote maior aqui, um seio pequeno disfarçado com enchimento alí, uma barriga apertada por uma cinta lá...

E ME DIZ UMA COISA: por acaso as pessoas que valem realmente a pena não sentem de alguma forma suas curvinhas ou a falta delas? As pessoas que viajam com você não te veem seminua na praia? Quando tá muito calor você não mostra suas pernas? Quando você engravida não deixa as pessoas acariciarem sua barriga? Quando você abraça alguém não deixa essa pessoa circular sua cintura com os braços e mãos? ENTÃO POR QUE VOCÊ ACHA QUE PRECISA ESCONDER SEU CORPO DAS PESSOAS se aquelas que realmente importam te sentem, te veem, te tocam, sabem como você é?

A gente devia mesmo é se aceitar como é. Encarar o nosso corpo como uma dádiva dos céus, que nos foi dada para moldar nossa história. Que as marcas são como as cicatrizes da infância: prova que a gente viveu, se divertiu, curtiu. Que os pneuzinhos são excesso de gostosura. Ou que a saboneteira e os ilíacos saltados provam que a gente existe, vive, que tem ossos que nos sustentam pra gente fazer o que quiser com o próprio corpo!


Nos primórdios, as roupas surgiram para nos cobrir e nos aquecer. Depois passou a dar indício do nível social e hoje é usada também para mostrar ao mundo quem somos. Pare de se esconder no preto quando sua personalidade é toda colorida como o arco-íris! Pare de usar determinada estampa porque aumenta ou diminui o seio. Use o que te der vontade, o que você achar que te representa e que te faz alegre. Faça suas próprias regras e não ligue para o que o outro está pensando de você. O que importa mesmo é como VOCÊ se vê.

E na próxima vez que você gostar de uma roupa na arara, pegue e corra para o provador. O máximo que pode acontecer é você não gostar dela. Aí é só devolver e provar outras opções. E se bater a dúvida, é só colocar no rosto seu melhor sorriso com qualquer roupa que faça você sentir-se confortável. É infalível.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Alternativas para o uso do couro animal

Essas amostras são de Arktex Fluffy, compostos de casca de árvore, lã e algodão. Foi premiado por excelência de material em Nova Iorque.

A cada dia surgem novas alternativas para tentar reduzir o impacto da produção de tecidos. As pesquisas nessa área avançam e as descobertas nos dão a esperança de uma moda mais ética e amiga do planeta. O couro de animais, por exemplo, ainda é um tecido que muitas marcas hesitam em substituir por causa de seus aspectos únicos, como a suavidade do toque e a proteção térmica. “Supostamente” não há nenhum substituto à altura do couro animal. Para quebrar esse “supostamente”, pessoas envolvidas com a área têxtil contestam essa afirmação, dizendo que existem sintéticos tão luxuosos e confortáveis quanto o couro. A estilista Stella McCartney é uma dessas pessoas e defendeu em uma entrevista para a Folha de S. Paulo que há sintéticos tão bons que chegam a ser confundidos com a pele de um animal. 

Na esperança de encontrar um substituto para o couro, a designer e pesquisadora (pioneira no assunto) Suzanne Lee decidiu colocar micro-organismos para trabalhar ao invés de humanos. Ela contou que, como designer de moda, sempre pensou em materiais para confecção de roupas sendo resultados de um processo que envolve várias etapas até a parte final. Por exemplo, a plantação de algodão, sua colheita, seu transporte, sua produção industrial e sua costura para produzir apenas uma camiseta. Ou a criação de animais, seu abatimento, a curtição e tingimento do couro para resultar em uma bolsa. Mas um dia, um biólogo a ensinou a pensar diferente: chá verde, açúcar, micro-organismos e uma parcela de seu tempo também poderiam resultar em peças de vestuário. Muito mais sustentáveis, sem prejudicar o meio ambiente e sem animais mortos. 

Essas peças foram feitas de chá de kombucha fermentado por micro-organismos. A peça do lado esquerdo foi tingida com pigmentos naturais e a da direita com índigo (em quantidade muito inferior que o utilizado em roupas de outros tecidos).

Suzanne criou uma fibra sustentável feita com chá de kombucha e açúcar, fermentada com bactérias e fungos e tingida com pigmentos de frutas e vegetais. Mas, com tanta perfeição e facilidade, porque não estamos por aí desfilando nossos tecidos de chás? A resposta vem da própria Suzanne: ela ainda não conseguiu tornar o material resistente à água. Mas sua pesquisa já é um avanço e tanto! 

Seguindo essa linha de tecidos feitos por bactérias, temos a designer Amy Congdon, que pesquisa materiais biodegradáveis que não produzem poluição e utilizem menos água e energia que os habituais. Ela sempre se interessou em misturar design e ciência e trabalha constantemente para desenvolver tecidos mais ecológicos, além de tentar descobrir como essas novas alternativas podem ser aplicadas nas confecções em larga escala.

Outro exemplo de tecido ecológico é o “couro” feito de frutas (Fruitleather Rotterdam), criado pelos alunos Hugo de Boon, Aron Hotting, Koen Meerkerk, Maaike Schoonen, Bart Schram e Miloy Snoeijers, da Willem de Kooning Academie, na Holanda. Eles utilizaram inicialmente 3.000 kgs de frutas que são jogadas fora depois de um dia de feira, descascaram e retiraram o caroço de cada uma e depois cozinharam e deixaram secar o que sobrou. O resultado foi um material semelhante ao couro animal. E ainda há sempre uma surpresa, pois a textura do tecido muda de acordo com a fruta usada. Com o “couro” de frutas pronto, eles já produziram uma mala (usando 14 mangas) e uma sacola de compras (feita de nectarinas); ambas apresentaram boa resistência. 

"Couro" feito com frutas descascadas e sem caroço, que iriam para o lixo caso não fossem reaproveitadas.

Ainda na onda das frutas, existe também um “couro” feito com fibras de abacaxi (extraídas do caule e das folhas). Desenvolvido pela empresa Ananas Anam, o tecido recebeu o nome de Piñatex e teve apoio dos designers Carmen Hijosa e Ally Capellino, e das empresas Camper e Puma. O trabalho começa com o processo de descasque, feito por uma comunidade agrícola, e pode ser tingido ou impresso para ganhar cores. As fibras de abacaxi são geralmente desperdiçadas na agricultura, portanto, seria uma maneira de reaproveitá-las sem precisar usar terra, água, fertilizantes ou pesticidas extras. 

Bolsas, tênis e carteiras produzidas com o tecido Piñatex, feito a partir da fibra e da folha do abacaxi

Mas nem só de frutas e de chás se faz “couro” ecológico. Existe uma versão feita da casca exterior da árvore, extraída e colocada em água que, misturada a outros elementos, forma o tecido conhecido como Barktex. Esse é outro projeto que necessita do uso de pouca energia, é ecologicamente seguro e ainda cria emprego para agricultores da Uganda, na África.

Esse Barktex faz parte da coleção “Exotics” da BarkClothes. São tecidos com pigmentos luminescentes ou iridescentes, que podem ser bordados com cristais Swarovski.

E para finalizar esse post, deixo para reflexão uma frase que foi impressa em uma das sacolas do Movimento Cuide (2004) que eu acredito que cabe bem aqui: “consuma sem consumir o mundo em que você vive”. Buscar alternativas aos tecidos que agridem os animais e o meio ambiente em que vivemos e apoiar essas iniciativas de pesquisas são bons começos para nos tornarmos mais sustentáveis.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

A Moda e o corpo

Algumas coisas me fizeram refletir sobre a moda e o corpo que a veste nesses últimos dias. O disparo inicial foi esse vídeo, que encontrei no blog da Consuelo Blocker, filha de Costanza Pascolato. Claro que todo mundo sabe quem é a jornalista Regina Guerreiro, ex editora da Vogue. Pois é dela a autoria do vídeo chamado "Bonecas à beira de um ataque de fome", que me chamou atenção pelo nome. Embora mostre um conteúdo interessante e real sobre a história da moda, os padrões de beleza e sobre a estética da magreza de acordo com a história, não pude deixar de rejeitar o vídeo. Como assim comer manteiga é pecado? Gente, para vai. Não existem comidas ruins! Tudo que é em excesso faz mal, óbvio, mas elevar ao status de pecado qualquer coisa que seja de comer me tira do sério.

Ao falar sobre as mulheres magras e soltar frases como "socorro, os homens só querem sair com elas" ou "nós, as outras,  temos que sobreviver sem pizza, sem chocolate, sem sorvete, sem creme chantilly. As gorduxas, tadinhas, não podem nem ter o prazer de morrer na praia" me dá um ataque de nervos. QUEM FOI QUE DISSE QUE MULHER TEM QUE VIVER SEM COMER PRA SAIR COM MACHO? Onde tá escrito que mulher que está acima do peso não pode ir a praia ou tem o corpo feio? A indústria da moda propôs isso, mascarou isso, vendeu isso, empurrou isso pra gente, criando inúmeros transtornos psicológicos e alimentares. E a gente fez o que? Disse "amém". É.
Regina termina dizendo que o visual que separa as pernas, nova obsessão entre as adolescentes, é tenebroso. Parem tudo novamente! Não se pode ser gorda e nem magra! Vamos ser o que então? Até quando vamos nos definir pelo tamanho do nosso corpo, dos nossos braços, pela grossura da perna, pelas dobrinhas a mais, pelo negativismo das barrigas, pelas canelas super finas ou os quadris enormes? A gente é mais do que um corpo, sendo ele gigante ou pequenino. Corpo é nosso instrumento para construirmos nossa obra de arte e não a obra de arte em si. Tanto faz se a pessoa é gorda, magra. TANTO FAZ! Ninguém deve e nem merece ser medido por isso. Merecemos ser reconhecidos pelo que fazemos, por nosso caráter, atos e conquistas. Use a moda a seu favor, e não como um mandato de prisão, por favor.

Eu, como estudante de moda, acredito que roupas e acessórios devem ser uma arma para expressar quem somos, nossa personalidade, humor, e até para aumentar nossa autoestima, pois escolher roupa é para muitos uma terapia e faz a mulher se sentir poderosa. Acho uma pena uma indústria que poderia ser tão libertadora, infelizmente, ter esse histórico triste.
 
O segundo link que me fez repensar a moda nos dias atuais foi esse texto, publicado na página Moda da Depressão.
Hoje em dia as informações são mais publicidade do que jornalismo mesmo. É jabá daqui, jabá de lá (já dizia meus estudos na época de TCC). É gente se sentindo a última bolacha do pacote porque pode vestir roupas caras (na maioria das vezes que ganhou da marca X). É gente se autopromovendo. É moda sem pensar, sem sentir, sem expressar nada, sem informações verdadeiras, só pelo falso prazer de usar roupinha de marca, ter uma fotógrafo profissional do lado e mostrar todo o glamour que é sua vida perfeita (é tudo máscara, viu, gente? Ninguém é 100% feliz, nem mesmo Gisele Bundchen, garanto).
E por último, para comprovar como a própria mídia que cobre eventos de moda está bem desinformada, vale a pena o clique no mais fantástico texto que li nos últimos dias: "Me vesti como uma idiota na Fashion Week para descobrir se é fácil aparecer num blog de moda". Adivinhem o que a autora do texto constatou? É isso mesmo que você está pensando: pode usar qualquer trapo, qualquer objeto, qualquer look estranho e louco e dizer que é de qualquer marca famosa, que é produto vintage. Tá liberado. Ninguém quer saber a real, ninguém se interessa pelo seu look. É diferente? Então deve ser real, deve ser foda, deve ter gastado grana, deve ser patrocinado.

Depois desseas informações, cheguei a seguinte conclusão: hoje em dia, todos amam a moda sem saber o que a moda é. Todos querem falar, sem nem saber do que estão falando. Viramos idiotas consumindo idiotisses, comprando qualquer porcaria, achando que só vamos ser bons quando tivermos o corpo mostrado na revista Y, ou igual ao da modelo X. Ou quem sabe quando parcelarmos em mil vezes no cartão o vestido da marca W, ou conseguirmos muitos acessos no Instagram e conquistarmos a publi tão desejada da marca J. Ler de verdade? Entender a história? Estudar? Se vestir para você? Refletir? Comprar consciente? Se amar antes de se ridicularizar? PRA QUÊ, NÃO É MESMO?

Indignação define.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Mais um desses posts chatos de desabafo (preciso parar!)

Resumo da última semana: chorar que nem criança e assistir filmes da Disney (porque eles sempre acendem uma luzinha aqui dentro de mim). Parece bobo. Na verdade É bobo. Enfim. (E eu tive uma overdose de Zac Efron sem querer. Conspiração televisiva contra minha pessoa que né, não vai muito com a cara do Troy Bolton Zac).

Sabe, quanto ao choro, me sinto mesmo um bebezinho. Quer dizer... quem é que passa o dia chorando na minha idade? Não adianta, eu até tento ser forte, me finjo de durona, mas né. Aqui dentro (♥) é só desespero.

Eu não espero que a vida me traga tudo que quero, sei que nada cai assim do Céu. Da vida eu só peço mesmo é força para correr atrás do que sonho pra mim. Quero mudar alguns pontos, achar alguma atividade que me complete, me formar na faculdade (aliás, peço mais uma coisa: que os próximos 6 meses passem rápido, voando), ser mais paciente. Parar de falar coisas para quem não merece ouvir e não mais fazer sofrer quem sempre está do meu lado. Embora não signifique que eu vá ficar quieta. Antes eu preferia o silêncio, mas agora falo tudo que tenho vontade. Me faz bem não guardar tudo aqui dentro de mim. Só que as vezes culpo quem não tem culpa. Por puro nervosismo (na verdade o que me falta é pensar antes de falar. Depois de vomitadas, as palavras não voltam. Não posso dar uma de cachorro e tentar engolir de volta tudo o que já saiu).

Já me falaram que meu maior problema é o egoísmo. Dizem por aí que só penso em mim. Pois agora vai ser assim mesmo: vou pensar muito mais em mim, porque né... ninguém mais pode dar um jeito na minha vida se não eu mesma. Não que eu vá parar de me importar com os outros (as vezes parece que caio em contradição, mas acreditem: as palavras estão desorganizadas, mas os sentimentos dentro de mim NÃO ESTÃO).

E chega de pagar de emo por aqui, haha! Vou parar com os posts down (I HOPE!).

Últimos filmes:
- Hairspray – Em Busca da Fama
- High School Musical 3 – Ano de Formatura
- Os Feiticeiros de Waverly Place – O Filme
- Hannah Montana – O Filme
- Mangue Negro
- Extermínio
(Esses dois últimos entraram na lista porque né, NEM SÓ DE FILMINHOS BONITINHOS VIVE UMA GAROTA CHORONA. Um beijo.
PS.: Agora vou ali assistir Como Se Fosse a Primeira Vez até cair no sono.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Um casamento chamado amizade

Dia desses eu li essa reportagem aqui que eu descobri em um post do Don’t Touch My Moleskine. Fiquei pensando: será que certos amigos que eu perdi, aqueles que de repente começaram a se distanciar (e muitas vezes eu até insisti na amizade, sem sucesso) não PLANEJARAM terminar nosso relacionamento? Será que foi mesmo aquele papo de “nossas vidas seguiram caminhos diferentes” ou foi algo mais elaborado? Nunca antes havia pensado na amizade como um quase-casamento. Mas agora vejo que talvez o jeito certo de ser amigo é justamente esse: se está fazendo bem para ambas as partes, ótimo. Mas se não, o correto mesmo é se afastar, afinal, um pode acabar atrapalhando a vida do outro (sem nem mesmo perceber).
Outro fator importante que leva a amizade a ser um quase-casamento é a sinceridade. Confiança é fundamental para qualquer tipo de relação. Talvez seja esse o motivo de tanta dor quando se perde um amigo: seus segredos estavam com ele, era com ele que você desabafava, era ele seu porto-seguro. E claro, era dele que você sempre ouvia o que mais precisava ouvir.
 

Eu sempre achei a palavra amizade forte, sempre acreditei que amigos de verdade devem estar juntos na diversão, mas também na fossa. A amizade só é verdadeira quando você pode abrir seu coração para a pessoa. Para mim, amigos podem e devem aconselhar, dar suas próprias opiniões, mas jamais julgar. Assim como em um casamento, a individualidade deve ser respeitada. Se você não concorda com as ideias do seu amigo deve mesmo assim respeitá-las. Ou então aí pode estar um sinal de que se deve cair fora da relação. Com certeza vai existir alguém que compartilhe das suas idéias em algum lugar.
No meu ver, amizade é aceitação. A gente procura trazer para nossa convivência quem nos aceite. Já lidamos em nosso dia-a-dia com muitas pessoas nos criticando (cliente chato, chefe, professores e até alguns familiares). Então porque diabos eu iria procurar um amigo-sou-dono-da-verdade?
Mas a vida me ensinou que nem sempre o amigo é aquilo que você espera que ele seja. E eu, enquanto amiga, também acho que não sou bem aquilo que os outros esperam.


E a partir desse texto do New York Times, pude perceber que talvez esteja na hora de fazer uma listinha de pessoas para rebaixar ao “coleguismo” o que antes era amizade. Ou até mesmo dar chance para outras pessoas transformarem-se em amigos (incluindo alguns dos atuais colegas). Ou então me esforçar mais para manter os poucos amigos bons. No final das contas, amizades, assim como os amores, vêm e vão. E entre tantas semelhanças com um casamento ou namoro, ela não deveria ser tratada diferente (principalmente a parte do término – onde deve se trabalhar para magoar o mínimo possível o outro. Isso se você não fizer parte do lado que está sofrendo com o “pé-na-bunda” – é, acho que podemos chamar assim).


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O tempo de mudanças na minha vida não está só em torno de amizades. Mas de muiiitas outras coisas. Faz bem! :)

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Em defesa dos animais de estimação

Meu maior susto de 2011 foi chegar no final do ano e descobrir que só tinha lido 12 livros. Me descuidei da leitura e sei que, na profissão que escolhi, ler é algo necessário. Claro que não é só pelo jornalismo que eu (e todo mundo, né?) preciso ler. Como estamos cansados de saber, ler amplia nosso vocabulário, desenvolve nossa imaginação e nos adiciona conhecimento.

Como viajei para Curitiba no final do ano, fiz um tour pelos sebos da cidade e comprei alguns livros. Entre eles, Alô, Chics! da Gloria Kalil. Respeito muito ela, sempre dou uma olhadinha em uma dica ou outra (embora não siga todas porque não nasci para ser perfeitinha, beijos). Mas dois textos do livro me chamaram a atenção e eu PRECISEI copiar alguns trechos e colocar minha opinião pessoal aqui no blog.

"Experimente chegar à casa de algum amigo dono de cão e não dizer bom dia para o bicho! Ambos vão morrer de ofendidos até vocês se darem conta da gafe e fazer um aceno qualquer na direção do animal – que só então vai deixar de ser hostil e se retirar para o seu canto. Estou exagerando? Nada disso. Ele tomou na casa o lugar que as crianças tinham no quesito companhia, alegria e afeto; muito justo que exija, ao menos, ser cumprimentado, e de preferência pelo nome. Ele é o verdadeiro dono da casa: mimado e cheio de vontades".

"Por isso, atenção: ao ir à casa de um amigo, descubram se ele tem um cão e tratem-no tão bem como a qualquer outro membro da família. Todos vão apreciar a atenção".

(página 120, Alô Chics - Gloria Kalil, 2007)
Como dona de um cachorro tratado como gente, concordo plenamente com o texto! Se quiser vir à minha casa, tem de tratar bem ao meu cachorro que pode não ser humano, mas faz parte SIM da família. Qualquer um tem todo o direito do mundo de não apreciar o bichinho, mas tem que pelo menos demonstrar respeito (pelo menos na casa de algum dono de cão).
Acho que se você não gosta de animais, tem o direito de não tê-los em sua casa mas jamais terá o direito de exigir que eu afaste meu animal de estimação de você (principalmente se for na minha própria casa, ou seja, a casa em que o bichinho mora).

Algumas páginas a frente, encontrei outro texto da Gloria falando sobre animais de estimação:

"(...) tenho horror de chegar à casa de alguém e ser recebida com latidos. Depois, passar o tempo, disfarçadamente, empurrando o animalzinho que vem me cheirar e lambuzar minha roupa com seu focinho e boca sempre molhados.
Sei perfeitamente que todas essas situações não incomodam nem um pouco os amantes dos cães, mas gostaria que eles levassem em consideração meu direito de não querer bichinhos por perto".

"Nem pensem em ir à casa de algum amigo com o totó sem pedir permissão antes; e não insistam se perceberem que o anfitrião não demonstrou entusiasmo com a possibilidade de receber essa dupla visita".

(páginas 200 e 201, Alô Chics - Gloria Kalil, 2007)

Admiro muito Gloria Kalil e amo suas dicas de etiqueta. Agora, devo discordar em partes desse texto. Como dito anteriormente, as pessoas tem o direito de não gostar de animais, de ter alergia aos pelos, enfim. Também acho que os donos dos bichos devem ter bom senso e educar seus cães ou tentar mantê-los afastados de alguma visita que não consiga conviver com o animal. Também acho erradíssimo quem prende o animal assim que chega uma visita, porque, no meu ponto de vista, o bicho tem mais direito de estar livre dentro de sua própria casa do que a visita. Claro que sou totalmente a favor de receber bem visitas, de tratá-las como se estivessem se hospedando em um bom hotel. Mas daí não gostar do meu cachorro e querer exigir distância dele já é demais!
Não gosta do meu cachorro, então que não venha na minha casa, oras! Marca de sair comer alguma coisa, de fazer compras, de ir ao cinema! Mas não queira desafiar o espaço do meu bichinho! Eu posso, por exemplo, não gostar de crianças, mas nem por isso vou pedir para que você tranque seu filho no quarto para que eu possa te visitar!
E digo mais: eu não peço permissão para levar meu cachorro a lugar algum. Na dúvida, não levo e também NÃO VOU. Agora, todos que me rodeiam sabem: me chamou para visitar sua casa, chamou junto meu cachorro. Não quer a presença dele, não me chame! Marque em outro lugar, simples assim.

O livro é ótimo, mas né. Eu precisava falar dessa parte aqui.

sábado, 2 de abril de 2011

As 5 melhores imagens da semana...

Depois de uma semana difícil na faculdade e da correria no dia-a-dia, nada melhor do que desejar enlouquecidamente assistir The Big Bang Theory até não aguentar mais. Nada mais prazeroso do que sentir que o respeito pelos animais ainda existe, mesmo que seja apenas vendo uma fotografia. Nada como sentir vontade de comprar mais relógios, só para usar vários no pulso. Nada mais fofo do que unir os três lugares que mais quero visitar em uma linda ilustração. Nada mais natural que querer terminar o final de semana em uma balada, principalmente se a balada se chamar Asteroid. Nada mais delícia que ouvir Strokes enquanto se toma chá. Nada mais brega do que usar um monte de 'nada' em todo começo de frase...

Ps: posso não ir pra balada hoje, mas domingo tem show do Avenged Sevenfold em São Paulo e eu super estarei lá.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Reflexão: Namoradinho

Certa vez, quando eu tinha meus queridos 14 anos, arrumei um namoradinho. Não durou muito tempo, talvez dois meses ou menos. Ele era 2 anos mais velho, tinha horário pra sair e chegar em casa, não falava palavrão, era super educado. Além disso, era um garoto muito bonito. E quando eu digo "muito", é muito mesmo, daquelas que suas amigas ficam comentando sobre como você é sortuda. Minha mãe, acredito eu, achou que eu tinha encontrado nele o homem da minha vida. Doce ilusão. Naquela época, eu queria um bad boy, que não tivesse hora pra voltar pra casa, falasse pelo menos um tipo de palavrão, comprasse briga por mim, ouvisse as mesmas músicas que eu ouvia, e preferivelmente, que enxesse a cara com os amigos em algum bar. Eu o achava lindo, mas um completo careta.
Hoje eu olho para trás e enxergo naquele namoradinho de dois meses, o cara ideal. Bom, talvez o cara ideal não exista. Mas aquele que se enquadra melhor no seu conceito de ideal existe. Chega a ser engraçada a maneira como mudamos em poucos anos, como nossos gostos se aperfeiçoam com o passar do tempo. É como se eu pudesse voltar ao meus 14 anos e enxergar tudo diferente, com outros olhos. Mas daí eu paro, e me imagino com meus 14 anos, enxergando quais seriam minhas preferências 5 anos mais tarde! Se eu pudesse se quer imaginar eu gostando do tipo "certinho" de cara, ou cursando Jornalismo em vez de Artes Cênicas, ou até ouvindo MPB e parando de beber, simplesmente não acreditaria. Provavelmente eu iria rir e dizer: "não, essa definitivamente não sou eu". Mas a verdade é que sim, essa sou eu. É meu eu de hoje, que pode não ser o mesmo eu de amanhã. Dá para entender?

Vou parando por aqui. Tô com uma necessidade de desabafar sobre o passado nesses últimos dias, que era praticamente impossível eu não escrever esse texto. Vale minha reflexão, acho que estou aprendendo a ver com outros olhos minha própria vida. :)