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quinta-feira, 7 de novembro de 2019
Resenha: Lady Killers, de Tori Telfer
Decidi que em outubro leria algo mais tenebroso, para comemorar o Halloween. Terminei de ler Lady Killers, de Tori Telfer, numa noite calma do dia 29 de outubro. Mas calmo é a última coisa que esse livro é, retratando mulheres doentes que matam por motivos muitas vezes torpes, torturando, vingando-se, envenenando impiedosamente. O livro traz 14 nomes de assassinas em série distantes dos dias de hoje. Como se fossem mitos, como se nunca tivessem existido, como se fosse apenas uma história de terror. Durante a leitura, tive que constantemente lembrar de que se tratavam de histórias terrivelmente reais. O que nos tira um pouco dessa coisa de “ah, parece faz-de-conta” são as outras 14 assassinas mais recentes listadas no final do livro pelo excelente blog O Aprendiz Verde. Nem sei se posso chamá-los de blog, se seria site, portal, conteúdo noticioso, enfim. Deixo de lado as etiquetações.
Lady Killers me fez sentir medo, me fez ficar horrorizada e me fez querer ainda mais entender até que ponto a mente humana pode chegar e quais atos podem praticar. Me fez olhar com desprezo para a sociedade machista que deixou de condenar algumas mulheres simplesmente porque elas eram atraentes. Me fez sentir angústia em muitas partes. Mas me fez ver que alí reside também humanidade. Não adianta, todas as assassinas são ou foram humanas! E o ser humano pode ser muito cruel. Eu queria entender o porquê. Se alguém conhecer livros que estudem a mente desses psicopatas (homens e mulheres) me indiquem! Porque já entendi de tudo que eles são capazes. Talvez nem tudo, mas o suficiente. Agora quero entender o porquê.
Às vezes acho que eu deveria ter estudado psicologia, mas daí percebo que é mais um hobbie mesmo. Quero me entender, enquanto uma pessoa que convive com Depressão, Transtorno da Ansiedade Generalizada e Transtorno da Compulsão Alimentar Periódica. Quero entender o porquê possuímos problemas mentais. O que deu errado? O que precisa ser feito? Por que as pessoas têm diversos transtornos mentais? Isso também conta, no caso das assassinas, com a Psicopatia.
Para entender mais sobre o assunto de seriais killers mulheres, no final do livro Lady Killers, contamos com listas de livros, filmes, documentários, séries e até clipes de músicas sobre o assunto. Um livro completo, com casos bizarros, com muito sangue derramado e que vale a pena ser lido – mas tem que ter estômago forte.
sexta-feira, 21 de setembro de 2018
Resenha: Märchenmond - Os Filhos das Terras Sombrias, de Wolfgang e Heike Hohlbein
Eu comprei esse livro há muitos anos, numa promoção do Carrefour entre os produtos em oferta. A resenha da contracapa chamou a atenção da minha mãe, que sabe do meu gosto por fantasias e logo me mostrou o livro. Olhei, gostei e comprei, mas a primeira tentativa de ler não me prendeu a atenção o suficiente e abandonei o livro. Só retomei num dia do ano passado em que eu estava precisando de uma historia fantasiosa e diferente e logo lembrei de Märchenmond: Em busca das Terras Sombrias. Märchenmond é uma trilogia alemã composta pelos livros A Terra das Florestas Sombrias, Os Filhos das Terras Sombrias e Os Herdeiros da Floresta, escrita por Wolfgang e Heike Hohlbein no início dos anos 80. Devo dizer que comecei a ler errado, direto no segundo volume da série (Os Filhos das Terras Sombrias), mas isso não afetou meu entendimento da história, o único problema foi não conhecer os personagens que iam reaparecendo no segundo livro e já eram velhos conhecidos dos protagonistas. Mas conforme vamos lendo, vamos também entendendo sobre quem são, suas características e personalidade. Mas vamos ao mais importante: o que achei do livro ao terminar a leitura? Separei em dois tópicos importantes antes de dizer se recomendo ou não:
Uma coisa que me surpreendeu foi o final. O livro consegue manter o mistério principal sem solução até suas últimas páginas. E eu juro que imaginei mil e um motivos para explicar o tal mistério e nenhum chegou perto do que aconteceu.
Não espere diálogos impactantes e revolucionários. Todas as falas são muito simples.
Uma coisa que me incomodou muito foram os momentos de virada da história. Sabe quando o personagem fica entre a vida e a morte e então alguma coisa muita louca acontece para salvá-lo? Então, Märchenmond peca demais nesses momentos. Antes do grande acontecimento SEMPRE tem frases como “e então, o milagre aconteceu” ou “o inesperado aconteceu”.
Para quem estuda escrita criativa, que nem eu, o livro traz muitos ensinamentos, principalmente sobre descrições. Você consegue imaginar a cena, as cores, sentir o cheiro e a textura somente lendo. Não tem descrição demais, a criação dos personagens fica por conta da imaginação do leitor, com um pequeno empurrão dos autores, tudo no ponto certo.
Resumão: Märchenmond tem uma história muito boa, um final que surpreende, com muitos bons exemplos de escrita criativa, porém com diálogos fracos e muitas frases mal escritas. Não é um livro que eu saio recomendando por ai, mas também não é um livro que eu falo logo “fuja, não leia isso não!”. Fiquei bem em cima do muro com ele.
O enredo
A história não me prendeu no começo, mas de cara já descobrimos que Märchenmond é tipo uma Nárnia: um mundo paralelo, com tempo e personagens diferentes. Esse foi um dos pontos que me atraíram para a leitura, pois: apaixonada pelas Crônicas de Nárnia. E acontece isso mesmo: o personagem principal, Kim, de repente consegue entrar nesse mundo paralelo, chamado Märchenmond, onde existem reis, príncipes, anões, dragões e outras criaturas fantásticas.Uma coisa que me surpreendeu foi o final. O livro consegue manter o mistério principal sem solução até suas últimas páginas. E eu juro que imaginei mil e um motivos para explicar o tal mistério e nenhum chegou perto do que aconteceu.
A escrita
Não sei se foi problema de tradução, mas eu me senti desconfortável com a construção de algumas frases, que não fizeram muito sentido, sabe? Mas como disse Stephen King em seu livro Sobre a Escrita, a gente tem que ler de tudo, seja bom ou ruim. E Märchenmond não chega a ser ruim, tem uma história boa, só achei mal escrito (ou, volto a repetir, mal traduzido. Não entendo nada de alemão para saber).Não espere diálogos impactantes e revolucionários. Todas as falas são muito simples.
Uma coisa que me incomodou muito foram os momentos de virada da história. Sabe quando o personagem fica entre a vida e a morte e então alguma coisa muita louca acontece para salvá-lo? Então, Märchenmond peca demais nesses momentos. Antes do grande acontecimento SEMPRE tem frases como “e então, o milagre aconteceu” ou “o inesperado aconteceu”.
Para quem estuda escrita criativa, que nem eu, o livro traz muitos ensinamentos, principalmente sobre descrições. Você consegue imaginar a cena, as cores, sentir o cheiro e a textura somente lendo. Não tem descrição demais, a criação dos personagens fica por conta da imaginação do leitor, com um pequeno empurrão dos autores, tudo no ponto certo.
Resumão: Märchenmond tem uma história muito boa, um final que surpreende, com muitos bons exemplos de escrita criativa, porém com diálogos fracos e muitas frases mal escritas. Não é um livro que eu saio recomendando por ai, mas também não é um livro que eu falo logo “fuja, não leia isso não!”. Fiquei bem em cima do muro com ele.
sábado, 16 de junho de 2018
Resenha: A Livraria Mágica de Paris de Nina George
Terça-feira, dia 12 de junho de 2018, 02h56 da manhã, dia dos namorados e eu acabo agora a leitura de A Livraria Mágica de Paris. Estou encantada. No início, parecia ser apenas mais um livro bem escrito, cheio de descrições, desses que te fazem sentir cheiros, lembrar-se de situações específicas, imaginar cores e texturas ao ponto de conseguir se transportar para o meio do mar, para Paris e depois para Sanary-Sur-Mer.
Mas isso foi só o começo, que apesar de delicioso, ainda me parecia normal. Logo, começa uma reviravolta. E lá pela metade do livro, dou de cara com a frase: “Agora. Existe apenas o agora. Faça isso já, covarde. Respire embaixo d’água de uma vez por todas” e, no contexto em que ela estava empregada, me serviu como um soco no estômago e um forte tapa na cara. Me fez refletir minha própria situação. Em paralelo à essa frase (que ia e vinha na minha mente durante a leitura), acompanhei todo o sofrimento do livreiro, ou melhor, do farmacêutico literário Jean Perdu. Chorei com ele. Viajei com ele. Quis cuidar de seus dois gatos Kafka e Lindgren. Quis ter um barco chamado Lulu que possui, dentro, uma Farmácia Literária. Aliás, quero ser farmacêutica literária, será possível? Mesmo sem um barco Lulu? Mesmo vivendo em uma cidade que fica bem distante do mar?
Pessoas precisam de livros para curarem suas almas. Eu mesma, apesar de ter ajuda médica, só consigo amenizar os ferimentos da alma por meio de livros. E A Livraria Mágica de Paris foi um respiro para mim. Desses que a gente precisa ter, sabe? Profundo, calmo. Quando você tem esse respiro, você sente-se bem, relaxada, pronta para tomar decisões mais racionais, pronta para colocar os pingos que faltam nos i’s. Esse livro me surtiu mais efeito porque tem Max Jordan, um personagem que é escritor. O livro mostra seus problemas e dilemas, inclusive com bloqueio criativo, e eu acompanhei como alguém que vive algo parecido e era nessas horas que lá vinha a frase que me atormentou durante toda a leitura de novo: “Agora. Existe apenas o agora. Faça isso já, covarde. Respire embaixo d’água de uma vez por todas”.
Os anexos, depois do fim da história, são também outro presente de A Livraria Mágica de Paris. Enquanto lia, parei em determinado momento para pesquisar a receita de Ratatouille. Qual não foi minha surpresa ao me deparar com ela no final do livro? Além de Ratatouille, outras receitas da história estão presentes nos anexos. E não tem como não ficar com água na boca e com vontade de saborear os pratos junto com os personagens, vai por mim. Minha única pesquisa de receita saída de livro no Google anteriormente tinha sido “como fazer cerveja amanteigada”, como boa Pottermaníaca que sou, pra vocês terem ideia de como esse livro desperta sensações fortes!
Outra parte importante dos anexos são as recomendações de livros da Farmácia Literária de Jean Perdu. As doses devem ser de 5 a 50 páginas, para serem bem aproveitadas. Por mais difícil que seja não devorar o livro, essa também é a maneira certa de se ler A Livraria Mágica de Paris. Esse é um livro para se sentir, para aproveitar com calma, para viajar junto com os personagens, para chorar, sofrer, secar as lágrimas, refletir, crescer, se libertar e querer viver junto com Perdu, Max Jordan e os outros personagens. Fazia tempo que eu não parava para deliciar um livro assim e provava junto esse tanto de sensações diferentes.
E a quem possa interessar, aqui explico a história por trás da frase “Agora. Existe apenas o agora. Faça isso já, covarde. Respire embaixo d’água de uma vez por todas”. Jean Perdu, desde o início do livro, nos conta que quer escrever um manual para futuros farmacêuticos literários. Mas ele nunca começou a escrever. Em certo momento do livro, ele está acompanhado do escritor Max Jordan e rola o seguinte diálogo, iniciado por Max:
A conclusão mais óbvia é que existem livros que realmente são remédios. E A Livraria Mágica de Paris, inclusive, é um deles.“- O senhor acha que, se eu comer algo estragado, consigo sonhar com uma história?
- Quem sabe?
- Dom Quixote também foi um pesadelo antes de se tornar um clássico. O senhor já sonhou com algo útil?
- Que eu podia respirar embaixo d’água.
- Uau. E o senhor sabe o que isso significa?
- Que, em sonho, posso respirar em baixo d’água.
Max repuxou o lábio para cima como uma risadinha de Elvis. Em seguida disse, solene:
- Não. Significa que seus sentimentos não tiram mais seu fôlego. Principalmente os mais profundos.”
(Trecho da página 120 de A Livraria Mágica de Paris)
Ficha Técnica
Título: A Livraria Mágica de Paris
Autora: Nina George
Tradutora: Petê Rissatti
Editora: Record
Ano: 2018
Páginas: 308
quarta-feira, 2 de agosto de 2017
Resenha: Confissões do Crematório de Caitlin Doughty
A gente evita pensar na morte, um tema que é muito tabu na nossa sociedade. Para refletir isso, Caitlin Doughty, ex operadora de forno de crematório e youtuber no canal Ask a Mortician, escreveu o livro Confissões do Crematório. Nele, ela tenta nos aproximar do tema, suavizando a ideia que temos sobre a morte ser algo obscuro. Na verdade, um velho ditado cabe bem aqui: “a única certeza que temos na vida é a morte”. Todos vamos morrer e alguém vai ter que lidar com nosso sepultamento ou cremação. Não seria mais fácil deixarmos nossos familiares e amigos sentirem a dor da perda, ao invés de terem que lidar com preparativos para o funeral e assinar documentação? Pois a autora nos fala justamente isso: é preciso pensar em nossa própria morte.
Caitlin nos leva a uma viagem com ela, desde sua infância – onde desenvolveu um Transtorno Obsessivo Compulsivo por não saber como lidar com a morte – passando por sua faculdade em História Medieval, onde ela devorou tudo sobre o tema morte – culminando em seu trabalho no crematório e em seus outros estudos e engajamentos sobre a indústria. Ela nos mostra o quanto é importante explicarmos para as crianças sobre a morte, ainda que obviamente precise ser de uma maneira mais sutil, mas sem usar a famosa história de “virou florzinha” (ou qualquer variante dela).
“Embora você possa nunca ter ido a um enterro, dois humanos no planeta morrem por segundo. Oito no tempo que você levou para ler essa frase. Agora, estamos em quatorze.”
Em suas críticas sobre a indústria obituária nos Estados Unidos, Doughty nos fala sobre como os cadáveres são preparados para que no velório pareçam vivos. Se você já foi a um funeral, deve ter ouvido a frase “olha como está sereno no caixão, parece até que está sorrindo” ou “parece que está só dormindo”. Na verdade, tudo é feito para que realmente pareça assim, desde o embalsamento, que conserva o corpo por muito tempo, até a maquiagem e os preenchimentos internos para dar mais volume, principalmente no rosto da pessoa. Catilin defende que tratar a morte dessa forma faz com que não vivenciemos nossos lutos da maneira que deveriam ser vivenciados. Todo esse mascaramento é feito para não termos que lidar com o fim da vida.
Falando assim, até parece que o livro tem uma narrativa pesada e desconfortável, mas posso garantir que não. Ok, algumas partes são meio explícitas, mas todas suavizadas com a escrita de Doughty. Ela nos conduz às suas histórias sobre a morte com a maior leveza possível, nos apresentando a um cenário detalhado, nos familiarizando com outros personagens envolvidos (vivos e não vivos, haha!) e até sendo cômica em diversos momentos. O humor dela é bem peculiar (o famoso humor negro), é verdade, mas acredito que quando a pessoa vive cercada pela morte, esse é o único humor possível.
“Um cadáver não precisa que você se lembre dele. Na verdade, não precisa de mais nada – fica mais do que satisfeito de ficar ali, deitado, apodrecendo. É você que precisa do cadáver. Ao olhar para o corpo, você entende que a pessoa se foi, que não é mais uma participante ativa no jogo da vida. Ao olhar para o corpo, você se vê nele e sabe que também vai morrer.”
Falando assim, até parece que o livro tem uma narrativa pesada e desconfortável, mas posso garantir que não. Ok, algumas partes são meio explícitas, mas todas suavizadas com a escrita de Doughty. Ela nos conduz às suas histórias sobre a morte com a maior leveza possível, nos apresentando a um cenário detalhado, nos familiarizando com outros personagens envolvidos (vivos e não vivos, haha!) e até sendo cômica em diversos momentos. O humor dela é bem peculiar (o famoso humor negro), é verdade, mas acredito que quando a pessoa vive cercada pela morte, esse é o único humor possível.

“A morte é o motor que nos mantém em movimento, que nos dá motivação para realizar, aprender, amar e criar.”
Título: Confissões do Crematório
Autora: Caitlin Doughty
Tradutora: Regiane Winarski
Editora: DarkSide Books
Ano: 2016
Páginas: 260
Ano: 2016
Páginas: 260
quarta-feira, 19 de julho de 2017
Resenhas: Jane Eyre e O Morro dos Ventos Uivantes, das irmãs Brontë
Me pergunto constantemente: o que tinha na comida da família Brontë para fazer com que três irmãs lançassem romances de sucesso? Para tentar entender, li recentemente os romances mais famosos de duas das irmãs: Jane Eyre, de Charlotte Brontë e O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë. Faltou ler algo de Anne Brontë, deixo para uma próxima!
Ambos os livros tem histórias bem melancólicas, que nos levam a sentir tristeza ao pensar em determinados personagens. Isso talvez se deva a vida que as próprias irmãs levaram: perderam a mãe precocemente e receberam estudos precários por conta disso; o irmão mais velho virou alcoólatra e a família passou por dificuldades financeiras. O primeiro livro lançado por elas, uma coletânea de poesias com pseudônimos masculinos, foi um fracasso. Aliás, só Jane Eyre foi sucesso imediato. Mesmo O Morro dos Ventos Uivantes foi criticado negativamente na época.
Jane Eyre – Charlotte Bronte
Jane Eyre é um livro peculiar, de uma escrita dessas que te prende por horas a fio e você acaba até se esquecendo de dormir. Acompanhamos Jane desde sua infância sendo uma órfã injustiçada pela mulher de seu tio – que faleceu - e por seus primos, até ser enviada para um internato. Lá, embora a educação fosse rígida, a menininha se tornou uma das melhores alunas, posteriormente tornando-se professora do local. Com espírito desbravador, Jane procura um emprego fora dos muros do colégio. Então ela é contratada como preceptora de uma garota chamada Adéle, pupila do Sr. Edward Rochester.
“As mulheres, em geral, são consideradas mais pacíficas que os homens. Puro engano. Elas experimentam exatamente o mesmo do que os homens, sofrem quando apertadas em moldes rígidos, numa estagnação absoluta, tal como eles. E aqueles que se sentem felizes, passando a vida a cozinhar, a coser meias, a tocar piano e a bordar, podem considerar-se espíritos acanhados. É uma insensatez condená-las ou troçar daquelas que procuram fazer mais ou adquirir conhecimentos superiores aos que é habito conceder ao seu gênero”.
“Que Deus o defenda, caro leitor, de sofrer o que eu sofri naquela altura, de chorar lágrimas tão ardentes, tão amargas como as que me saltara dos olhos, de erguer ao céu preces tão desesperadas como as que me brotavam dos olhos! Que nunca tenha a certeza, como eu tinha, de ser instrumento de dor para aquele a quem mais amava no mundo!”
A edição que eu li é portuguesa (de Portugal), mas em nenhum momento a língua atrapalhou a leitura.
Ficha Técnica
Título: Jane Eyre
Autora: Charlotte Bronte
Tradutora: Mafalda Dias
Editora: Book.it
Ano: 2011
Páginas: 415
O Morro dos Ventos Uivantes – Emily Bronte
Não sei como começar a falar sobre O Morro dos Ventos Uivantes. O livro começa praticamente pelo fim e vai caminhando até o início da história de um menininho que ganha o nome de Heathcliff, encontrado abandonado pelas ruas de Liverpool e trazido para morar na casa chamada O Morro dos Ventos Uivantes pelo proprietário, Sr. Earnshaw, pai de Catherine. As duas crianças desenvolvem uma amizade forte norteada por um amor mais forte ainda. A parceria nas travessuras é o que mais me chamou a atenção de início. Um dia, depois de crescerem, Cathy se vê numa dúvida: casar-se com o requintado Sr. Linton, que ela amava de certa forma, ou com seu grande amor, sua alma gêmea, Heathcliff, que não se tornou um menino muito instruído? Em uma confissão para sua ama Nelly Dean, Catherine diz que “Casar-me com Heathcliff agora me degradaria; por isso, ele nunca vai saber quanto eu o amo; e o amo não por ele ser bonito, Nelly, mas por ele ser mais eu do que própria sou. Não sei de que nossas almas são constituídas, mas a dele e a minha são iguais, e a de Linton é tão diferente quanto um raio de luar de um relâmpago, ou a geada do fogo”.
O amor entre os dois é infinito e não morre nem quando Cathy decide finalmente se casar com o Sr. Linton, que é extremamente apaixonado por ela, como nos atesta Nelly: “Edgar Linton, assim como milhares de homens antes dele, e milhares depois dele, estava apaixonado; e ele se considerava o homem mais feliz do mundo no dia em que à conduziu a capela de Gimmerton (...)”. A partir daí, o pequeno Heathcliff, que era apenas travesso, se transforma num poço de maldades, numa pessoa sem escrúpulo nenhum, amargurada, capaz de causar as maiores perversidades contra todos que o rodeiam. Ele ama demais Cathy e odeia demais o resto do mundo.
O final é surpreendente e eu não posso falar mais para não dar spoilers. Durante a leitura, precisei fazer várias pausas para respirar e digerir tudo. É um livro triste, carregado de personagens mimados, egocêntricos, irritantes, maldosos – nisso me lembrou o brasileiro O Cortiço, de Aluísio de Azevedo, com muitos personagens que fogem do comum.
Quando descobriram, na época de mil oitocentos e bolinhas, que a verdadeira autora de O Morro dos Ventos Uivantes era uma mulher, todo mundo se chocou. Como uma mulher poderia escrever algo tão grotesco? (Toma essa, sociedade!)
A tradução que li foi feita por Solange Pinheiro que tomou o cuidado de traduzir as gírias e o dialeto de Yorkshire (região onde as irmãs Brontë moravam).
Ficha Técnica
Título: O Morro dos Ventos Uivantes
Autora: Charlotte Bronte
O amor entre os dois é infinito e não morre nem quando Cathy decide finalmente se casar com o Sr. Linton, que é extremamente apaixonado por ela, como nos atesta Nelly: “Edgar Linton, assim como milhares de homens antes dele, e milhares depois dele, estava apaixonado; e ele se considerava o homem mais feliz do mundo no dia em que à conduziu a capela de Gimmerton (...)”. A partir daí, o pequeno Heathcliff, que era apenas travesso, se transforma num poço de maldades, numa pessoa sem escrúpulo nenhum, amargurada, capaz de causar as maiores perversidades contra todos que o rodeiam. Ele ama demais Cathy e odeia demais o resto do mundo.
“Meu amor por Linton é como a folhagem nos bosques. O tempo vai alterá-lo, sei muito bem disso, assim como o inverno altera as árvores. Meu amor por Heathcliff se parece com as rochas sempiternas sob a superfície: uma fonte de pouquíssimo prazer visível, mas necessário. Nelly, eu sou Heathcliff – ele está sempre, sempre em meus pensamentos; não como uma coisa prazerosa, não mais do que eu sou sempre uma fonte de prazer para mim, mas como meu próprio ser... então, não mencione outra vez nossa separação; ela é impossível (...)”.
Quando descobriram, na época de mil oitocentos e bolinhas, que a verdadeira autora de O Morro dos Ventos Uivantes era uma mulher, todo mundo se chocou. Como uma mulher poderia escrever algo tão grotesco? (Toma essa, sociedade!)
A tradução que li foi feita por Solange Pinheiro que tomou o cuidado de traduzir as gírias e o dialeto de Yorkshire (região onde as irmãs Brontë moravam).
Ficha Técnica
Título: O Morro dos Ventos Uivantes
Autora: Charlotte Bronte
Tradutora: Solange Pinheiro
Editora: Martin Claret
Ano: 2014
Páginas: 427
Ano: 2014
Páginas: 427
“Qual seria o significado da minha criação se todo meu ser estivesse contido apenas em mim mesma? Meus maiores sentimentos tem sido os de Heathcliff, e eu vi e senti cada um deles desde o início; minha maior razão de viver é ele.” - Catherine em O Morro dos Ventos Uivantes
quinta-feira, 6 de julho de 2017
Resenha: O Segredo dos Corpos, de Dr. Vincent Di Maio e Ron Franscell
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| Capa do livro O Segredo dos Corpos, escrito por Dr. Vincent Di Maio e Ron Franscell |
O Segredo dos Corpos possui nove capítulos contando diferentes casos que envolvem mortes – sejam elas por crimes ou suicídio – todas analisadas ou com necropsias feitas pelo Dr. Vincent Di Maio, importante médico legista e patologista forense dos Estados Unidos. Conta com prefácio feito pela Dra. Jan Garavaglia, que apresenta o seriado “Dra. G: Medical Eximiner”, da Discovery Channel.
Dr. Di Maio realizou por toda sua vida mais de nove mil necropsias e foi a peça chave para muitos julgamentos famosos como o de Martha Woods, que já contei por aqui em “Martha Woods, a assassina de bebês”.
Dr. Di Maio realizou por toda sua vida mais de nove mil necropsias e foi a peça chave para muitos julgamentos famosos como o de Martha Woods, que já contei por aqui em “Martha Woods, a assassina de bebês”.
"Eu ainda fico chocado com pessoas que se recusam a acreditar em monstros. Não percebem que há gente aí fora capaz de cortar a garganta de alguém só para ver se a faca está afiada?"
Imagine que você é médico legista – responsável por fazer necropsias. Nos Estados Unidos existem cerca de quinhentos patologistas forenses certificados. Cada um desses consegue fazer 250 necropsias por ano. Como o próprio Di Maio aponta, há uma lacuna a ser preenchida aqui: eles precisam de pelo menos o dobro disso para dar conta do recado – ou muitos casos de crimes ficarão mal resolvidos. Então, ainda imaginando que você é médico, vamos supor que você aceite preencher essa lacuna. Você estaria pronto para desenterrar um caixão e analisar os restos mortais de seja quem for que estiver lá dentro? Se sim, você conseguiria lidar com o cheiro de peles e órgãos apodrecidos? Conseguiria lidar com o fato de que vários insetos, bactérias, estariam presentes também nesses corpos? E se for o corpo de um bebê ou uma criança? São muitas questões para se pensar. E para entendermos um pouco sobre essa área e até respondermos como reagiríamos a essas questões, Dr. Vincent nos explica como foram feitas algumas necropsias de pessoas que morreram vítimas de algum crime, inclusive bebês.
Entre os casos presentes no livro, estão a exumação de Lee Harvey Oswald - suposto assassino do presidente Kennedy; a necropsia e investigação da morte de Trayvon Martin, adolescente negro que morreu em 2012, na Flórida – sua morte impulsionou o movimento Black Lives Matter; o julgamento de Phil Spector, importante produtor musical, preso em 2006, acusado pela morte da atriz de filmes B, Lana Clarkson e até uma investigação sobre a morte de Vincent Van Gogh, divulgada como suicídio, mas que com informações do médico que o viu instantes antes de morrer, pôde ser reavaliada por Di Maio mais de 127 anos depois.
Entre os casos presentes no livro, estão a exumação de Lee Harvey Oswald - suposto assassino do presidente Kennedy; a necropsia e investigação da morte de Trayvon Martin, adolescente negro que morreu em 2012, na Flórida – sua morte impulsionou o movimento Black Lives Matter; o julgamento de Phil Spector, importante produtor musical, preso em 2006, acusado pela morte da atriz de filmes B, Lana Clarkson e até uma investigação sobre a morte de Vincent Van Gogh, divulgada como suicídio, mas que com informações do médico que o viu instantes antes de morrer, pôde ser reavaliada por Di Maio mais de 127 anos depois.
“Os corpos falam e podem revelar toda a verdade por trás de uma morte”
O Segredo dos Corpos me surpreendeu em vários aspectos: todas as situações são muito bem dissecadas no livro, com um grande trabalho de pesquisa que envolve toda a história do crime (provavelmente é aí que entra o segundo autor: Ron Franscell, que é jornalista). Vai muito além da parte médica.
Recomendo? Sim e muito! Um dos melhores livros que li na vida, importante até para entendermos um pouco mais a mente humana, além de como trabalham médicos legistas.
"Desde o século XVII, quando panfletos impressos de modo barato espalhavam descrições gráficas de assassinatos locais, os humanos são fascinados por histórias de crimes. As peças de Shakespeare eram repletas de homicídios. Nada vendia mais do que a intriga... e a derradeira vitória da moralidade e do raciocinio sobre a desordem e a depravação. E nada era mais misterioso do que a morte"
Ficha Técnica
Título: O Segredo dos Corpos
Autores: Dr. Vincent Di Maio e Ron Franscell
Tradutor: Lucas Magdiel
Editora: DarkSide Books
Ano: 2017
Páginas: 256
Título: O Segredo dos Corpos
Autores: Dr. Vincent Di Maio e Ron Franscell
Tradutor: Lucas Magdiel
Editora: DarkSide Books
Ano: 2017
Páginas: 256
terça-feira, 27 de junho de 2017
Resenha - Contos de Imaginação e Mistério, de Edgar Allan Poe
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| Capa do livro Contos de Imaginação e Mistério |
Edgar Allan Poe foi escritor, poeta, crítico literário e editor de jornais, nascido nos Estados Unidos, que fez fama com seus contos macabros. É considerado por muitos como o inventor do gênero de ficção policial. No livro Contos de Imaginação e Mistério, encontramos 22 histórias de sua autoria. Em muitas delas, Poe nos insere no assustador mundo de quem sofre de catalepsia - um distúrbio que deixa a pessoa com aspecto de morta, quando ainda está viva.
No livro estão presentes importantes e famosos contos do autor como “O Gato Preto”, “O Coração Denunciador”, “William Wilson”, “Os Assassinatos da Rue Morgue”, “A Máscara da Morte Vermelha”, “A Queda da Casa Usher”, “Berenice” e “O Barril de Amontillado”.
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| Ilustração do conto A Máscara da Morte Vermelha, por Harry Clarke |
Nessa edição podemos encontrar também os meus contos preferidos do escritor: “Os Fatos do Caso do Sr. Valdemar”, “O Enterro Prematuro”, “O Poço e o Pêndulo” e o “Escaravelho de Ouro”. Para ficar perfeita, faltou ter a poesia “O Corvo” – que já atestei aqui no blog o quanto sou fã.
Somos presenteados, mais para o final do livro, com o conto que deu continuidade ao “Os Assassinatos da Rue Morgue”: “O Mistério de Marie Roget”, que conta a história da morte de uma moça parisiense, recepcionista de uma perfumaria. Publicado primeiramente no ano de 1842, esse conto foi baseado na história real do assassinato de Mary Cecilia Rogers, moradora de Nova Iorque que trabalhava como recepcionista em uma tabacaria.
As outras histórias que completam Contos de Imaginação e Mistério são “Manuscrito Encontrado numa Garrafa”, “Uma Descida no Maelstrom”, “O Encontro Marcado”, “Morella”, “Ligeia”, “O Colóquio de Monos e Una”, “Silêncio – Uma Fábula”, “O Rei Peste” e “Leonizando”.
As outras histórias que completam Contos de Imaginação e Mistério são “Manuscrito Encontrado numa Garrafa”, “Uma Descida no Maelstrom”, “O Encontro Marcado”, “Morella”, “Ligeia”, “O Colóquio de Monos e Una”, “Silêncio – Uma Fábula”, “O Rei Peste” e “Leonizando”.
Detalhes da edição
Contos de Imaginação e Mistério tem ilustrações belíssimas do irlândes Harry Clarke. Lançado no Brasil pela editora Tordesilhas, a edição foi originalmente publicada em inglês em 1919 pela editora George G. Harrap & Co, de Londres, Inglaterra. O prefácio do livro fica por conta do escritor Charles Baudelaire, que foi o primeiro tradutor dos contos de Poe para o francês.
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| Capa falsa de Contos de Imaginação e Mistério, de Edgar Allan Poe. Ilustração de Harry Clarke. |
O livro possui duas capas: a original é toda preta, com apenas o nome do livro, do autor, do ilustrador e da editora se destacando na folha. A segunda é uma capa falsa, colocada por cima da original, com ilustração em preto e branco.
Minhas opiniões
Acho muito bela a maneira que Poe descreve os romances em seus contos, ainda que a história em si seja macabra. Quase podemos sentir o amor e devoção por Ligeia, de tão bem descrito que é o sentimento. Muitos relacionam essa fixação que Edgar tinha de escrever contos de amor com mulheres morrendo com sua própria história de vida: ele próprio perdeu sua mulher amada por causas desconhecidas.
Também gosto da maneira como Poe consegue nos colocar medo porque suas histórias têm um fundo de realidade. A maneira como o autor conta, em “O Enterro Prematuro”, sobre a angústia do personagem principal ao sentir que foi enterrado vivo, nos dá uma sensação claustrofóbica, como se estivéssemos passando pela mesma agonia dele.
Por não termos muito conhecimento de causas sobrenaturais e sabermos que a hipnose é algo real com provas científicas, que sinto tanto medo toda vez que leio “Os Fatos do Caso do Sr. Valdemar”. São coisas que, embora difíceis, não são impossíveis de acontecer. Explorar essas áreas ainda desconhecidas que temos na vida (ou que não possuem estudos suficientemente esclarecedores), mostrando-nos um lado delas plausível de acontecer de formas trágicas, que fazem de Poe o meu autor preferido.
Para quem nunca teve contato com a obra desse artista, recomendo que comece por esse livro, que tem um compilado incrível de contos, muito bem traduzidos, com notas de rodapé que complementam os textos de forma eficaz.
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