11 de janeiro de 2017

Dicas para ter em mãos na hora de escrever ficção

O último livro que li ano passado foi "Sobre a Escrita", de Stephen King. Ele é um pouco soberbo quando dá dicas de escrita. Claro que acredito que ele tenha propriedade para falar do assunto, mas se achar o único a ter técnicas que te tornam capaz de escrever algo brilhante é presunção demais. Mesmo assim aconselho a leitura, porque tem muitas coisas importantes e saber de algumas manias do Stephen o torna mais humans aos nossos olhos de escritores amadores.

O autor descreve seu livro da seguinte maneira: "Parte deste livro — talvez grande demais — trata de como aprendi a escrever. Outra parte considerável trata de como escrever melhor. O restante — talvez a melhor parte — é uma carta de autorização: você pode, você deve e, se tomar coragem para  começar, você vai. Escrever é mágico, é a água da vida, como qualquer outra arte criativa. A água é de graça. Então beba. Beba até ficar saciado".
Porém, vale lembrar que ele não sabe de todas as coisas, né? Então leia, mas não tome tudo como verdade absoluta.


Já falei aqui sobre uma dica preciosíssima dele e que para mim é muito real desde a época da faculdade. Mas separei algumas outras passagens do livro que eu quero guardar para sempre em algum lugar para reler:

"Não existe um Depósito de Ideias, uma Central de Histórias nem uma Ilha de Best-Sellers Enterrados; as ideias para boas histórias parecem vir, quase literalmente, de lugar nenhum, navegando até você direto do vazio do céu: duas ideias que, até então, não tinham qualquer relação, se juntam e viram algo novo sob o sol. Seu trabalho não é encontrar essas ideias, mas reconhecê-las quando aparecem."

"A ideia de que criatividade e substâncias que alteram a mente estão ligados é um dos grandes mitos pop-intelectuais do nosso tempo. Os quatro escritores do século XX cujo trabalho é, em grande parte, responsável pelo mito são, provavelmente, Hemingway, Fitzgerald, Sherwood Anderson e o poeta Dylan Thomas. Eles formaram nossa visão de um deserto existencial de língua inglesa, onde as pessoas estão isoladas umas das outras e vivem em uma atmosfera de estrangulamento emocional e desespero. Esses conceitos são muito familiares para a maioria dos alcoólatras; a reação mais comum a eles é o divertimento. Escritores viciados não passam de pessoas viciadas — bêbados e drogados comuns, em outras palavras. Qualquer defesa de drogas e álcool como necessidade para embotar sensibilidades mais refinadas não passa de conversa auto piedosa para boi dormir. Ouvi motoristas de caminhões limpa-neves alcoólatras dizerem a mesma coisa, que bebem para acalmar seus demônios. Não importa se você é James Jones, John Cheever ou um mendigo bêbado que dorme na estação de trem; para um viciado, o direito à bebida ou à droga deve ser preservado a todo custo. Hemingway e Fitzgerald não bebiam porque eram criativos, alienados ou moralmente fracos. Bebiam porque é isso que bêbados estão programados para fazer. É bem provável que gente criativa de fato esteja mais propensa ao alcoolismo do que gente de outras áreas, mas e daí? Somos todos iguais quando estamos vomitando na sarjeta." 

"Faça agora mesmo uma promessa solene de nunca usar ‘gratificação’ quando quiser dizer 'gorjeta’ e jamais usar 'John parou tempo suficiente para realizar um ato de excreção’ quando quiser dizer 'John parou tempo suficiente para cagar’. Se você acha que 'cagar’ seria ofensivo ou inadequado para seu público, fique à vontade para dizer 'John parou tempo suficiente para se aliviar’ (ou talvez 'John parou tempo suficiente para empurrar’). Não estou tentando fazer com que você use palavrões, mas que seja objetivo e direto. Lembre que a regra básica do vocabulário é: use a primeira palavra que lhe vier à cabeça, se for adequada e interessante. Se hesitar e ponderar, você vai encontrar outra palavra — claro que vai, sempre existe outra palavra —, mas é bem provável que ela não seja tão boa quanto a primeira, ou tão próxima do que você realmente quer dizer." 

"A Legião da Decência pode não gostar da palavra merda, e talvez você também não goste muito, mas algumas vezes não dá para fugir dela — nunca uma criança correu para a mãe para dizer que a irmãzinha defecou na banheira. Talvez ela dissesse fez cocô, mas cagou é, lamento dizer, a fala mais provável (crianças pequenas escutam tudo mesmo). Você tem que dizer a verdade se quiser que seu diálogo tenha a ressonância e o realismo que Hart’s War, por melhor que seja a história, não tem — inclusive sobre o que as pessoas dizem quando martelam o dedo. Se você trocar 'merda' por 'droga' por se preocupar com a Legião da Decência, estará rompendo o contrato tácito que existe entre o escritor e o leitor — a promessa de dizer a verdade sobre as ações e falas das pessoas por meio de uma história ficcional. Por outro lado, um de seus personagens (a tia velha e solteirona do protagonista, por exemplo) talvez diga mesmo 'droga' em vez de 'merda' depois de martelar o dedo. Você vai saber o que usar se conhecer bem seu personagem, e nós vamos aprender alguma coisa sobre o falante que o tornará mais vívido e interessante. O objetivo é deixar cada personagem falar livremente, sem preocupação com o que a Legião da Decência do Círculo de Leitura das Senhoras Cristãs aprovaria."

"Muitos anos se passaram — anos demais, eu acho — até que eu perdesse a vergonha do que escrevia. Acho que só depois dos 40 anos me dei conta de que praticamente todos os escritores de ficção e poesia que já publicaram uma linha que seja foram acusados de desperdiçar o talento que Deus lhes deu. Se você escreve (pinta, dança, esculpe ou canta, imagino eu), alguém vai tentar fazer com que você se sinta mal com isso, pode ter certeza. Não estou me lamentando aqui, apenas tentando mostrar os fatos como os vejo."

"Se você nunca tiver feito isso antes, vai descobrir que ler seu livro depois de um intervalo de seis semanas é uma experiência estranha, às vezes arrebatadora. É seu, você reconhecerá como seu, talvez seja até capaz de lembrar qual música estava tocando quando escreveu certos trechos, e ainda assim vai parecer o trabalho de outra pessoa, talvez uma alma gêmea. É assim que deve ser, é por isso que você esperou. É sempre mais fácil matar os queridinhos de outra pessoa do que os seus."

"Em alguns dias, a escrita é um caminho longo e muito sombrio."

"A escrita não é para fazer dinheiro, ficar famoso, transar ou fazer amigos. No fim das contas, a escrita é para enriquecer a vida daqueles que leem seu trabalho, e também para enriquecer sua vida. A escrita serve para despertar, melhorar e superar. Para ficar feliz, ok? Ficar feliz."

Obs.: Grifos meus para destacar mas ainda o que eu já tinha destacado. Sou dessas.

Sempre que escrevo ficção para outras pessoas lerem, reluto em usar algumas palavras mais "pesadas", mas me senti autorizada ao ler os trechos acima que falam sobre isso. Se um cara foda como Stephen King pode, por que diabos eu não poderia? Tem muito a ver com o sentido da cena, com a emoção do momento e com o que realmente seu personagem falaria se você não se preocupasse com a censura dos outros. Sempre me lembro de O Almoço Nu,  de William Burroughs, que ainda não terminei de ler. Se ele tivesse substituído todas aquelas milhares de palavras pesadas, o livro nem sentido teria.

Sobre esperar um tempo depois de escrever seu livro e relê-lo: quando fiz isso, tinha esquecido de detalhes importantes na história e senti como se estivesse lendo algo totalmente novo, escrito por outra pessoa. Claro que eu ia me lembrando conforme a leitura avançava, mas essa técnica me fez admitir que alguns trechos estavam muito bem escritos, de maneira que achei que nunca seria capaz de escrever. Serve para enxergar brechas na história e excessos também. É mágico.

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