19 de outubro de 2018

Making a Murderer e o caso brasileiro da Escola Base

Ano passado eu decidi assistir Making a Murderer. Primeiro veio o choque em conhecer a história de Steven Avery, que vou contar mais abaixo. Depois, me solidarizei com ele. Por último, comecei a refletir sobre Jornalismo e me lembrei do caso Escola Base. Aqui, fiz uma análise entre os dois casos e explico o porquê não gostei dessa série.

ATENÇÃO: contém spoilers da 1ª temporada da série Making a Murderer

Making a Murderer 

Making a Muderer, Steven Avery
Steven Avery na época de sua prisão injusta

A série do Netflix documenta a história real de Steven Avery, morador do condado de Manitowoc, em Wisconsin, preso em 1985 acusado de tentativa de assassinato e agressão sexual. Ele passou 18 anos preso injustamente, até que novas provas concluíram que o responsável pelo crime, na verdade, foi um homem chamado Gregory Allen, que ficou solto por todos os anos em que Avery permaneceu preso. Steven moveu um processo contra as autoridades do condado, a fim de reparar os danos sofridos e evitar que outras pessoas fossem presas injustamente. Mas então, uma fotógrafa, chamada Teresa Halbach foi assassinada e seus restos mortais foram queimados e encontrados no ferro-velho Avery ao lado do trailer onde Steven morava. Além disso, ela comprovadamente esteve no ferro-velho fazendo uma reportagem fotográfica naquele dia. Avery foi preso e condenado à prisão perpétua por isso, enquanto se declara inocente. Uma das principais provas veio de seu sobrinho Brendan Dassey, que confessou ter ajudado o tio no crime. Nos vídeos das entrevistas dos investigadores com Dassey, vemos claramente que ele é uma pessoa mentalmente abalada. Seus advogados dizem que ele é portador de deficiências cognitivas.
Tudo aponta, na série, para que Avery novamente tenha sido acusado falsamente, com uma provável armação das autoridades contra ele. 

Mas, sempre tem um “mas”

A série é tendenciosa. Não quero com isso dizer que Avery é culpado, ele pode sim ser inocente. Aliás, o princípio básico de todo julgamento é partir do ponto de que o acusado é inocente, até que se prove o contrário. Só que, ao assistir a série, pessoas não familiarizadas com o jornalismo investigativo podem não enxergar o quanto o programa é parcial. Temos que ter em mente o seguinte: o julgamento foi longo e, mesmo em 12 episódios, não foi mostrado na íntegra. Não sabemos o que convenceu os jurados de que Avery era culpado. Não sabemos se de fato houve manipulação. O que mais confunde aqui é o que não é mostrado! As cenas são editadas em sua maioria para mostrar as partes do julgamento que favorecem Avery e torna o lado do acusador um verdadeiro vilão a ser combatido. 

A cobertura da mídia em casos criminosos pode ser perigoso

Um documentário em formato de série que põe um lado como superior ao outro pode nos enganar. As cenas não foram montadas, tudo que aparece lá realmente aconteceu. Mas elas foram editadas: foram selecionadas apenas as partes necessárias para montar uma defesa para Avery. Temos que desconfiar daquilo que não vemos. Quando um lado é menosprezado em prol do outro, há uma parcialidade, ou seja, é “puxado sardinha para um lado”, o que pode nos convencer de algo que não é real. Já ouviram falar no caso da Escola Base?

O Caso Escola Base 

Escola Bse notícia
Uma das manchetes da época, noticiando o caso da Escola Base

Em setembro de 1992, os casais Icushiro Shimada e Maria Aparecida Shimada e Paula Milhin de Monteiro Alvarenga e Maurício de Monteiro Alvarenga se associaram e compraram uma pequena escola, com apenas 17 alunos matriculados, localizada no bairro da Aclimação, pertencente ao distrito da Liberdade, próximo ao Centro de São Paulo. Juntos, eles investiram em melhorias para a escolinha, com trabalho recompensado: no início de 1994, apenas dois anos depois da compra, a escola já contava com 72 alunos. 

No dia 27 de março de 1994 surgiu uma denúncia contra os dois casais e mais duas pessoas, acusando-os de abusar sexualmente de crianças de apenas quatro anos, estudantes da escola.

Como as denúncias ocorreram

Lúcia Eiko Tanoue Chang brincava com seu filho de quatro anos quando ele começou a fazer movimentos sexuais. A mãe questionou a atitude do filho que, embora relutante, confessou que tinha visto isso em um vídeo na casa de outro coleguinha, filho do casal Saulo e Mara da Costa Nunes. Mas quem tinha levado a criança até a casa? O pequeno disse que tinha ido durante o horário de aula, numa Kombi dirigida por Icushiro. A criança ainda contou que ele e outra amiguinha, filha de Cléa Parente de Carvalho, tinham sido fotografados sem roupa pelos donos da Escola Base. Lúcia e Cléa então prestaram queixa contra os três casais na 6ª Delegacia de Polícia, na zona sul de São Paulo. O delegado de plantão no dia ordenou uma busca, que foi infrutífera, no apartamento de Saulo e Mara. Lúcia e Cléa, indignadas com o resultado, procuraram a imprensa e expuseram o caso. O Jornal Nacional foi o primeiro meio de comunicação a noticiar, no dia seguinte, que seis pessoas eram acusadas de promover orgias infantis. A imprensa brasileira, sem apurar o caso, condenou os acusados antes de eles terem a chance de depor para a polícia.

Uma rápida análise sobre a cobertura midiática no caso Escola Base

Meios de comunicação decidiram publicar o caso no melhor estilo “diz-que-me-diz”, sem investigação nenhuma, cobrindo-o com sensacionalismo. Outra surpresa caiu nas mãos de repórteres de todo o país: o resultado do exame feito pelo IML em uma das crianças, dizia que ela tinha lesões no ânus que eram compatíveis com a prática de atos libidinosos. Mais notícias acusadoras surgiram. Só que, em poucos dias, o IML falaria novamente, afirmando que os exames na verdade tinham dado inconclusivos e que as lesões poderiam vir de algum problema intestinal. Não houve apuração jornalística nenhuma, a primeira nota do IML e as afirmações precipitadas do delegado responsável pelo caso foram suficientes para a imprensa condenar os acusados.
Somente no final de junho começaram a surgir matérias na mídia que assumiam que não haviam provas suficientes para condenação. Na parte jurídica as acusações foram apontadas como infundadas. Mas daí o inferno na vida dessas pessoas já estava feito: a escola foi depredada e teve que ser fechada, as casas dos suspeitos também foram destruídas, os acusados foram ameaçados de linchamento e morte, tendo de se esconder como fugitivos. Anos depois, todos tiveram algum problema de saúde por causa de todo o sofrimento que passaram e até hoje não receberam toda a indenização a que tem direito.
Aqui ocorreu o contrário do caso Avery – que foi colocado como inocente pela mídia (no caso, o documentário). Na Escola Base, seis pessoas foram acusadas sem prova nenhuma pelos jornais brasileiros. Da mesma forma, a sardinha foi puxada para um lado só, percebem? 

CONCLUSÃO

Embora a série traga a presunção da inocência para Steven, é muito perigoso mostrar apenas um lado da história. Notícias que surgiram depois do lançamento da série nos mostram a ex noiva de Avery dizendo que ele não é inocente e que atuou no documentário, inclusive. Não sabemos o porquê dela ter dito isso, nem a verdade, mas o pouco espaço para a acusação de Avery nos faz acreditar cegamente na inocência dele.

No segundo caso, condenaram os inocentes também sem ouvirem seus lados na história, destruindo suas vidas. Paula, a professora, nunca mais conseguiu emprego na área que amava. Ela sofre com depressão e se separou de Maurício Alvarenga, que sofreu com Síndrome do Pânico e tinha medo de sair na rua. Icushiro Shimada faleceu em 2014 após um infarto. Sua esposa, Maria Aparecida, faleceu em 2007, vítima de câncer. Ambos morreram sem receber toda a indenização que esperavam. Saulo e Mara Nunes enfrentaram muitos problemas financeiros por conta da contratação de advogados.

Esses são os perigos de se expor apenas um lado do caso, de ser parcial em casos de crimes reais. Nós não sabemos se Avery é inocente ou não. O fato aqui é que ele foi condenado e nós sabemos que a série, nem se demonstrasse inclinação para cobrir todos os ângulos, teria tempo suficiente para isso. São 30 anos de história! Hoje, a Netflix lançou a segunda temporada da série, mesmo assim não há tempo para cobrir tudo que se precisa.

Vidas são destruídas por causa da imparcialidade da mídia mundial. Enquanto jornalistas e editores não se atentarem para corrigirem dentro de seus veículos falhas como essas, somos nós, consumidores de todos os tipos de veículos de comunicação, que devemos questionar todos os ângulos de uma história. Antes de acreditar cegamente na nossa mídia, está na hora de questionarmos ela.

2 de outubro de 2018

Esquadrão da Moda e a perda de identidade

Stacy London na época em que apresentava What Not to Wear
Stacy London na época em que apresentava What Not to Wear
Sempre que posso eu relembro aqui que moda não é sobre seguir tendência e se aprisionar a um monte de regras para esconder suas imperfeições. Moda é para ser divertida, para expressar quem você verdadeiramente é. Um profissional de consultoria de moda, por exemplo, vai ter auxiliar a coordenar as peças que você já tem no seu guarda-roupa com novas que você precisa de acordo com sua personalidade e estilo de vida, aliados com seus objetivos e sua realidade (por exemplo, você trabalha em academia e tem também uma vida fitness. Não faz sentido ter em seu guarda-roupa mais roupas de balada, que você só vai um dia no final de semana, do que de academia, certo?). Nunca um profissional de consultoria vai fazer como naqueles programas de estilo, tipo Esquadrão da Moda, onde todas as peças de roupa da pessoa são jogadas fora. Não, gente, para, aquilo é entretenimento, isso aqui é vida real!

Stacy London, por exemplo, foi apresentadora de um programa chamado What Not to Wear, com a mesma pegada de Esquadrão da Moda (inclusive, ele foi transmitido no Brasil com esse nome na tradução pelo canal Discovery Home and Health). Assim que deixou de apresentar o programa, em 2017, Stacy refez seu estilo. Ela disse que não aguentava mais usar certas peças de roupa: “Depois de dez temporadas de What Not to Wear, eu cansei dos vestidos com silhueta A, saia lápis, tops florais e saltos altos. Aquilo não combinava comigo quando eu não era a Stacy em frente às câmeras, mas eu sentia a pressão para aparecer daquele jeito no geral”. Percebe a prisão em que ela estava para estar em um programa onde supostamente ela ajudava as pessoas a encontrarem seus próprios estilos? Ela comenta, em certo ponto de uma entrevista que deu ao Man Repeller, que “Seria bobo pensar que meu estilo ficaria estático”. E é verdade, ninguém fica com o mesmo estilo sem sofrer mutações por tantos anos, as pessoas mudam, suas vidas mudam, seus estilos às acompanham, simples assim. 
Stacy London pós What Not to Wear em ensaio para o Man Repeller - mais livre para vestir o que quiser
Stacy London pós What Not to Wear em ensaio para o Man Repeller - mais livre para vestir o que quiser

O grande problema desses programas é que, ao jogar fora todas as roupas das pessoas sem tentar reaproveita-las em novos looks eles jogam fora junto toda uma história, tanto da peça, quanto da própria pessoa que a usa, toda sua identidade exteriorizada, tudo o que ela quer dizer pro mundo.

Acho assim: tudo bem querer se vestir melhor, se sentir mais adequada com a vida que se leva. Mas a maioria dos participantes desses programas não querem realmente isso e são convencidos a se moldarem ao que os outros querem, sejam amigos, sejam familiares. Fora os julgamentos que eles passam antes da transformação. Eu não assisto mais esse tipo de programa, mas da última vez que vi eles eram cruéis, mexiam com o psicológico do participante. A estética das roupas de qualquer um pode mudar e evoluir sim, mas levando em consideração o que a pessoa gosta, se ela quer e o quanto quer mexer no próprio armário e sem jamais ferir a autoestima da pessoa para incitá-la a mudar.

A moda é uma linguagem. Se você vir os posts de história da moda daqui do blog facilmente vai identificar através das fotos de pessoas trajando seus vestuários os períodos históricos aos quais pertencem. O mesmo vale para um indivíduo. O que você veste, mesmo que inconscientemente, expressa quem você é, fazendo facilmente você ser reconhecido assim. Tirar todas as roupas que uma pessoa possui é como tirar parte de sua história de vida, por isso critico tanto o método utilizado nesses programas. Isso se torna pior quando a pessoa tem um estilo pré definido e alternativo, como acontece em culturas que cultuam o período gótico ou o punk, por exemplo. Tirar delas essa representação é tirar o direito de poder se expressar de acordo com aquilo que ama e acredita, percebe a gravidade? Sobre isso, lembrei desse texto de 2014 do Moda de Subculturas que explica muito bem essa questão da moda nesses programas com o adendo do viés alternativo. Vale a pena conferir.

Links extras:

26 de setembro de 2018

A mania de dar opinião na vida dos outros

Esses dias estava conversando com uma amiga sobre essa necessidade que as pessoas tem de dar opinião na vida dos outros. O problema não é nem ter a tal opinião, mas sim expressar ela, sem a pessoa que inevitavelmente vai receber a opinião – sobre sua própria vida - ter solicitado. Isso acontece muito com mulheres grávidas, por exemplo. É considerado normal as pessoas se sentirem no direito de dizer “não come tal coisa, faz mal para o bebê” ou “você ainda dirige no oitavo mês? Pois devia parar já!”. Só que essas mesmas pessoas, com opiniões tão certeiras, não oferecem soluções. Não é como se os “opineiros” de plantão tivessem a intenção de ajudar, eles querem apenas “causar” na vida alheia! Eu me pergunto o porquê, será que Freud explica?

Tem um ótimo vídeo já meio antigo da HellMother que ironiza essa situação:


Uma coisa que pessoalmente me incomoda – e muito – é alguém me oferecer uma dieta, sem eu ter solicitado. Vejam bem, quem sabe da minha alimentação sou eu, quem sabe da minha saúde também sou eu, quem paga médico, adivinha só, sou eu. Mas sempre alguém quer oferecer a Dieta-do-Insira-Um-Nome-Bizarro-Aqui que viu na Revista Para Panacas e que fez a atriz Xys Ypsolon emagrecer 40 kg é verdade esse bilhete. GENTE, APENAS NÃO! Se você não vai preparar a sopa do momento pra mim (e depois lavar minha louça, claro) e caso der ruim para minha saúde pagar médico e exames, então, com todo o respeito possível, enfia sua indicação de dieta no meio do olho do seu belo arco que fica entre suas duas nádegas! Se meu corpo te incomoda o problema é total e completamente seu, não venha me pedir pra resolver isso pra você. Meu corpo não ME incomoda e está saudável, isso que importa.

Recentemente lá nas gringas tivemos o caso da modelo Tess Holiday, que foi capa da revista Cosmopolitan do Reino Unido. Acontece que as postagens da foto (linda, diga-se de passagem) causaram alvoroço nas pessoas e elas não puderam se conter. Não, elas não conseguem ficar sem digitar. Deve ser alguma nova doença, algo pra ser estudado: pessoas que simplesmente não sabem guardar suas opiniões. Muitos disseram que a revista estava fazendo apologia à obesidade. Que beleza, né? A gente anda pelas ruas e vê todo mundo magrinho, né? Todo mundo bem Bruna Marquezine aí quando vê uma gorda numa capa de revista vira um auê. Gordura por si só não é doença. Nem todo gordo é doente, nem todo magro é saudável. Pessoas gordas existem aos montes, pesquisa do Ministério da Saúde indica que mais de 50% da população brasileira, por exemplo, está acima do peso. No Reino Unido, onde a capa em questão aconteceu, mais de um quarto da população é obesa de acordo com dados da CIA. Por que cargas d’água então tem gente que se irrita com gordo em capa de revista?

E por ter falando em Bruna Marquezine, ela também fez stories esses tempos atrás contando como sofre pressão estética. Sim, o problema da opinião alheia que machuca não chega apenas para alguns poucos infelizes, ele atinge muita gente, inclusive uma das pessoas mais famosas, talentosas e lindas do Brasil. Alguns comentários em uma de suas fotos no instagram diziam que Bruna estava com “pernas finas que nem um macarrão” e outros a mandavam “engordar”. Não era sugestão apenas, usei a palavra mandar, pois acredito que ela é a palavra certa mesmo. As pessoas que não sabem se controlar chegam ao ponto de se achar no direito de mandar na vida de alguém que nem conhecem pessoalmente. 
capa da revista Cosmopolitn com a modelo Tess Holliday
A tal capa da revista Cosmopolitn com a modelo Tess Holliday
Embora eu tenha reclamado das dietas não solicitadas, para mim o problema maior ainda é sobre saúde mental. Canso de ouvir pessoas opinando sobre minha depressão. “Você está triste? Vai dar uma caminhada, sai de casa um pouco”. Queridos, quando tenho crises de depressão, a última coisa no mundo que quero é sair de casa. Não só não quero, como não consigo. Levantar da cama custa MUITA energia. As vezes, tomar banho é impossível. Só quero dormir o dia inteiro, chorar e ouvir música triste. Quando levanto do colchão, parece que colocaram um peso de 200 kgs nas minhas costas. Faço o mínimo esforço e já me sinto cansada, como se tivesse batido pernas o dia inteiro no Brás / 25 de Março. “Ah, mas pense, tem gente que sofre mais que você, olha as crianças na África e blablabla...”. Primeiro: a pessoa nem conhece a história da África, mas ela quer usar o que aprendeu em algum comercial de TV pra me fazer sentir melhor. Adivinha só? Não ajuda. E olha que ouço muito isso das crianças na Africa passando fome como se fosse um bom argumento para combater minha depressão. Sério. Segundo: não estou e nunca estarei concordando em fazer uma COMPETIÇÃO DE DOR. E terceiro: São dois tipos diferentes de dores, gente. Não tem como comparar. A minha é uma doença, é depressão, tem que ser tratada com terapia, remédios, entre outros. A das crianças é FOME, envolve muitos outros fatores, como política, nível social, etc. Vamos parar de comparar tudo errado além de dar opinião a torto e a direito na vida dos coleguinhas, por favor?

 Imagem retirada daqui.

24 de setembro de 2018

Por que somos tão inseguros?

por que somos inseguros?

Passeando pelas timelines das redes sociais volta e meia me deparo com análises ou piadas sobre a questão “Capitu traiu Bentinho?”. É curioso pensar que um livro publicado em 1989 ainda tem o poder de causar rebuliço nos dias de hoje, tamanha é sua fama. Mas não, eu não estou aqui pra falar sobre a questão Capitu. Quero falar sobre o problema em ter vergonha de se expor. Pensa comigo, com certeza Machado de Assis teve episódios de ansiedade, insegurança e medo, afinal, todo ser humano tem essas coisas. E se num desses momentos, Machado sentisse medo de não ser lido ou receio de seu texto não estar bom o suficiente? Se esses sentimentos o tivessem paralisado e o impedissem de entregar a primeira versão de Dom Casmurro, nós não conheceríamos Capitu e Bentinho hoje. Se Machado fosse inseguro ao extremo (e talvez ele fosse, mas dava algum jeito de vencer isso), jamais teríamos outros tantos livros incríveis como Memórias Póstumas de Brás Cubas ou Quincas Borbas.

Mas Machado foi meu primeiro exemplo. Assim como Dom Casmurro, que é leitura obrigatória para vestibulandos, também estão livros como O Guarani, de José de Alencar. E o José, será que teve uma vida linda, sem medos, totalmente seguro de si, de seu trabalho, de sua escrita?

Vamos chegar no nosso tempo, só para dar um exemplo atual de uma pessoa que causa tanto tumulto na internet quanto Capitu: Elena Ferrante com sua tetralogia napolitana. Será que Ferrante tem insegurança ao escrever? Será que, como eu quando escrevo, Elena acha tudo lindo e fantástico e dois meses depois relê e acha tudo uma grande matéria fecal? Ou será que esses autores citados são alienígenas e nunca tiveram medo de entregar seus textos, pois estavam plenamente conscientes da sua genialidade?

Colagem por Graziele Lima para o blog Eu e Minha Estupidez

O ponto onde quero chegar é, tomando como certo que nenhum deles é um alienígena, se essas pessoas não tivessem vencido suas inseguranças quando elas surgiram, não teríamos hoje essas obras e nem estaríamos 100 anos depois discutindo uma possível traição ou postando fotos de trechos de conversas entre Lila e Lenu no Instagram. E a gente, que escreve mas não tem essa fama toda, será que não está se sabotado demais com relação aos nossos textos? Será que não estamos deixando nossa insegurança vencer, em vez de mostrar ao mundo nossa cria?

Eu sei que não sou a única que escreve e não publica por medo, insegurança, vergonha. Conversei com uma amiga que é poeta e escritora e vi que a insegurança em mostrar o que escrevemos não é só minha, é de todo mundo nesse ramo. Ela, por exemplo, escreve coisas lindas e inspiradoras. Mas é muito fácil pra mim, que estou lendo e sendo impactada com o trabalho dela falar isso. Ela perceber o quanto uma vida pode ser tocada se entregar o texto para a internet ou qualquer outro meio, são outros 500, percebem?

Nós deixamos nossa insegurança nos dominar. Por que não paramos e pensamos, como citado nesse texto, que nossas ideias podem parecer óbvias pra gente, mas são incríveis para os outros? Um dia vamos reler aquele texto publicado e encontrar erros, certamente, mas tudo bem, isso só mostra que evoluímos enquanto escritores e não que aquela obra não valeu para alguém.

Colagem por Graziele Lima para o blog Eu e Minha Estupidez

A gente tem medo de arriscar. E eu sei que é difícil, porque enquanto escrevo isso, tenho três livros escritos e guardados só pra mim. Mas me assusta pensar em quantos novos Machados de Assises estamos perdendo. Não precisa nem ser tão genial quanto o Machado, mas poderia ter uma obra impactante, que marcaria os próximos séculos. Quantas Elenas Ferrantes se escondem em pessoas que simplesmente tem medo de mostrar suas escritas as vezes até para um amigo próximo? A gente precisa parar. Só que... eu não sei como. Eu realmente não sei.

Esse texto termina assim, sem solução nenhuma. Se você tiver uma, por favor, ajude essa galera que escreve e que precisa. Salve os Machados, os Josés e as Elenas, por favor. E salve a mim, que preciso aprender a não me sabotar mais.


*PS.: usei colagens feitas por mim, representando momentos de insegurança, para ilustrar esse texto, achei uma maneira não convencional de ilustrar a postagem, ao mesmo tempo em que eu tenho esse momento de vulnerabilidade por postar arte minha aqui, além dos textos.*