5 de junho de 2014

Sobre a liberdade corporal

Sou dessas que acredita e prega que o corpo de cada um só diz respeito a si mesmo. Sendo você o dono de seu corpo pode fazer o que bem entender dele. Você é livre para usá-lo da forma que achar melhor, que mais lhe agradar. Partindo disso, quero falar sobre três notícias que me chamaram bastante atenção nos últimos dias:
  1. O estudante que comeu parte do próprio corpo como um projeto de arte
  2. O evento “Xereca Satânik” dentro da Universidade Federal Fluminense, em Rio das Ostras – RJ
  3. O projeto de lei que visa proibir e criminalizar o eyeball tattooing no Brasil
No primeiro caso, Alexander Selvik Wengshoel, 25, sofria com problemas em seus quadris. Quando finalmente pôde substitui-lo por uma prótese, levou embora seu osso com pedaços de seu quadril do hospital. Em casa, ele decidiu fritar sua própria carne junto com pimenta e alho e comeu com batatas e vinho. Fez tudo em nome da arte e apresentou em seu trabalho de conclusão de curso. “Meu objetivo é fazer o público refletir. A vida é curta e as pessoas têm o hábito de fugir da dor. Um corte no dedo e elas já estão engolindo algum comprimido. A dor não é física – é uma ideia, algo que você pode aprender a lidar. Não precisa ser algo negativo. Só quero que o público pense sobre o que é a vida, e o que o corpo significa para você”, declarou ele. Aí o mundo inteiro o acusa de ser canibal, de estar louco e bla bla bla. Mas quanto a isso, ele mesmo se “defende”:  “Canibalismo se baseia principalmente na ideia de matar outra pessoa e comê-la – geralmente crua. Gosto de comparar o meu ato a comer a placenta depois de dar a luz. É parte do seu corpo. Você pode chamar de canibalismo se quiser, mas eu não acho que seja isso”.

A segunda história é a que mais me intriga. Muita revolta nessa internet por conta dela. Motivo? SENSACIONALISMO em cima do ocorrido. Como explicou Daniel Caetano, responsável pelo Departamento de Artes e Estudos Culturais, em seu Facebook, a performance foi feita para chocar, fazia parte de uma disciplina chamada Corpo e Resistência e contou com a apresentação de um coletivo que foi de Minas Gerais até a Universidade. Ele ainda ressalta que “infelizmente, há pessoas que acreditam que o mundo deve ser moldado à sua imagem e semelhança, sem permitir qualquer espécie de desvio do padrão ou mesmo qualquer espécie de afronta à sua sensibilidade confortável, conformista e preguiçosa. A costura de partes do corpo, inclusive da região genital, não é novidade para qualquer pessoa que tenha lido mais de um parágrafo sobre arte contemporânea posterior aos anos 1970. Sugiro a quem quiser saber mais sobre o assunto que pesquise os trabalhos de pessoas como Marina Abramovic e Lydia Lunch. A performance tinha como um dos objetivos denunciar a constante violência contra mulheres na cidade de Rio das Ostras, onde as ocorrências de estupros estão entre as maiores do país. O caso é que foram feitas e divulgadas fotos do evento - o que deu a ele uma dimensão política e social que vai muito além dos muros do Pólo, tornando-se tema de blogs sensacionalistas e da imprensa marrom”. Ele ainda afirma que não houveram rituais satânicos como propunha o convite e como foi divulgado pela imprensa sensacionalista. Tudo foi apenas provocativo, como ele já afirmou, com o objetivo de chocar. Leia o relato completo aqui.

Pronto. O corpo é da performista e se ela quis costurar sua vagina em forma de protesto/arte, também é escolha e problema dela. Os outros envolvidos também fizeram tudo por vontade própria. Nenhuma pessoa foi obrigada a ver. Você pode não gostar, não simpatizar, achar escroto e até se ofender quando aparece “satânico” no meio por conta de suas crenças, mas não possui o direito de julgá-los ou julgar qualquer pessoa que tenha participado pois tudo foi por livre e espontânea vontade e carregava um propósito. Aliás, outra coisa que Daniel Caetano lembra: “embora não tenham sido feitos ‘rituais satânicos’ e o título do evento fosse essencialmente provocativo (ao contrário do que o jornalismo marrom afirmou), precisamos dizer que não haverá de nossa parte qualquer censura a atos do gênero. A universidade pública é LAICA, como todo o estado brasileiro”.

Essas duas primeiras histórias podem até nos causar espanto. Mas elas fazem parte de uma arte contemporânea. O cara quis comer uma parte de si mesmo, não matou ou mutilou ninguém e nem a si próprio, afinal, o osso e a carne do quadril foram retirados justamente para que não o atrapalhassem mais! A decisão sobre o que fazer com o que restou é dele e se ele quis provar seu próprio sabor é problema dele. Pode causar estranheza em que vê, mas ele fez o que quis, tendo em mente seus próprios propósitos, sem cometer nenhum crime.

E quanto a lei para criminalizar a prática do eyeball tattooing no Brasil... gente, pelamor né? Quem procura esse procedimento está ciente dos riscos, ninguém vai enganado tatuar os olhos não. É uma decisão bem pensada. Nunca houve um caso de cegueira, embora envolvam riscos. O que se precisa é investir em pesquisas para que a pratica seja aperfeiçoada. Clique aqui para ler um texto do portal Frrrk Guys que fala mais sobre e com certeza explica melhor do que eu. NÃO É POR SAUDE que o deputado federal Rogério Peninha Mendonça criou esse projeto de lei, muito menos para proteger as pessoas. Novamente repito: o corpo é deles e cabe a eles e SOMENTE  a eles decidir o que fazer ou não. Chega de preconceito, de viver nesse mundinho fechado de mente trancada.

PS: "aiiin Graziele, você se diz cristã e apoia essas práticas e blá blá blá". Tenho minhas opiniões pessoais sobre cada um dos casos, mas entendo uma coisa: ser cristã não é sinônimo de ser intolerante e também sei que o corpo, como já disse, é de cada um. Corpo deles, regras deles. Meu corpo, minhas regras. O que eu tenho é uma coisa chamada respeito. Eu entendo que cada qual tem sua crenças, suas regras e que nada no mundo pode me fazer julgá-las por suas atitudes para consigo mesmas.

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