5 de outubro de 2016

Amanda Palmer, a sua Arte de Pedir e os artistas de rua

A internet inteira falando de Amanda Palmer, claramente a pessoa pouco curiosa que eu sou ia acabar indo atrás do tal livro A Arte de Pedir. No começo, a leitura não me prendeu. Eu não era intima da Palmer para saber o motivo da vida dela ser tão interessante aos olhos dos outros. Por isso, acabei largado o livro depois de algumas páginas, sem ainda ter tido oportunidade de conhecê-la. Mas né, a vida, essa estranha e traiçoeira vida tratou de me mostrar que eu tinha SIM que ler o livro todo. Em um dia de manhã, indo para a aula, parei em um semáforo e pela primeira vez eu enxerguei no cara que faz malabarismos no sinal um artista e não um ser qu,e só queria pedir meu dinheiro. Ele era exatamente como eu quando subi em um palco para atuar, sentindo a emoção de entrar em contato com o público e mostrar sua obra prima. Amanda tinha me feito, com aquelas poucas páginas, entender que artista de rua não é mendigo, é um trabalhador como outro qualquer, como eu mesma trabalho. Ele não está pedindo dinheiro, está oferecendo sua arte e você paga se quiser, se conseguir vê-lo (no sentido de sentir a intenção dele, interagir com o olhar e compreender a arte). Como eu pude pré julgar tanto?
Se antes eu tinha um ciúme absurdo das minhas moedas que iriam parar em um cofrinho em casa, hoje conto-as para poder pagar as apresentações de semáforos. Consigo prestigiar como se fosse uma longa peça teatral com vários atos, ainda que dure menos de um minuto.

A história d’A Noiva, personagem estátua criada por Amanda (e que foi seu trabalho durante anos), me mostrou que há uma troca entre artistas de rua e os espectadores que param por alguns segundos de seus corridos dias para observar a apresentação de um até então desconhecido. Depois que decidi continuar o livro (e logo viciei na leitura, devorando página por página) aprendi muito mais, não só sobre pessoas e trocas, mas também sobre confiança, oferecer e aceitar ajuda e acima de tudo entendi que pedir é algo natural do ser humano, não é um ato vergonhoso, não é preguiça e nem se iguala a mendigar. Compartilhar momentos e coisas com outras pessoas é uma dádiva. Conheci o coração de Amanda, conheci detalhes íntimos de seu casamento, conheci sua lealdade aos fãs e amigos, seu carinho e dedicação à arte. Fechei o livro me sentindo amiga intima dela, como se tivesse mergulhado profundamente dentro de sua alma. E agora estou aqui ouvindo todas as músicas dela que encontro pra me conectar ainda mais com essa grande mulher! 

Esse ano eu tive muita sorte com livros, encontrei um melhor que o outro, aprendi muito com eles e me identifiquei totalmente. Minha lista de favoritos ganhou algumas linhas.

"Quando a gente examina a gênese das grandes obras de arte, dos novos empreendimentos de sucesso, das mudanças políticas revolucionárias, sempre é possível identificar uma história de trocas monetárias e não monetárias, de mecenas ocultos e favores subjacentes. Podemos achar maravilhoso o mito moderno de Steve Jobs se matando de trabalhar na garagem dos pais para criar o primeiro computador da Apple, mas essa imagem não mostra a cena talvez constrangedora em que Steve — provavelmente durante um jantar macrobiótico com carne de soja — teve que pedir a garagem aos pais. A única coisa que sabemos é que eles concordaram. E agora temos iPhones". (Amanda Palmer em A Arte de Pedir)

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