12 de junho de 2016

Uma questão crítica, por Eduardo Motta
















Acho muito importante discutir a crítica de moda brasileira que é praticamente inexistente. A maior parte das revistas de moda acabam vendendo matérias ou falando bem de determinada coleção apenas para não perder patrocinadores. Essa, inclusive, foi a análise feita no meu TCC de jornalismo, sobre a publicidade em textos ditos jornalísticos.
Nem toda coleção é boa e digna de elogios (assim como em outras áreas, como livros e filmes), então, por qual motivo nós só vemos elogios para a moda de passarela por aí? Trouxe hoje uma excelente reflexão, feita por Eduardo Motta, no livro "O lugar maldito da aparência" (Editora Estação das Letras e Cores):

Uma questão crítica
"Para uma área que ocupa um papel central na cultura contemporânea e na qual as ações requerem a tomada rápida de um número elevado de decisões, a moda é espantosamente falha em cultivar um aparato crítico em torno dela, preferindo optar pelo texto afirmativo (de caráter publicitário ou descritivo) que amadurecer, submetida à opinião externa.

Há casos notórios nos quais quem se arriscou a criticar uma coleção perdeu o assento no próximo desfile da marca. Não se engane pela aparência inofensiva. Na moda, identificar falhas na proposta de uma coleção, analisando comparativamente os resultados e eventualmente concluindo que alguma coisa não foi bem (ainda que de forma isenta e objetiva como a boa crítica deve ser), pode transformar-se em uma atividade cheia de perigos.

As razões que levam a moda a evitar a crítica como se estivesse diante de uma arma configuram um assunto, mas não é um mistério. A contradição aumenta se considerarmos que muitos de nós, seus agentes, exercitamos com frequência a arte do comentário afiado em situações reservadas. Esta prática privada não configura necessariamente uma crítica, mas seria possível pensar nela como uma espécie de treinamento.

Se os candidatos a exercer a crítica temem represálias, as marcas, por sua vez, receiam que uma opinião negativa possa abalar o prestígio que desfrutam e prejudicar as vendas. O círculo de proteção fecha-se. Neste ponto a moda retrocede nas suas pretensões como atividade criativa, endurece o jogo e inviabiliza uma prática comum nas artes visuais, na literatura ou no cinema, empacando na condição de atividade estritamente comercial, da qual, reiteradamente, tenta afastar-se. Isso acontece quando é conveniente ampliar o valor cultural da marca, estratégia que tem contrapartida no valor econômico, mas a deixa mais exposta. Neste caso, não ajuda o conhecimento de que os filmes de grande bilheteria são geralmente os mais castigados pela crítica e raramente alguém deixa de ver uma exposição e ler um livro porque receberam críticas ruins. É como se nunca houvesse sido observado e dito que, se há algo que pavimenta a presença de uma proposta de pretensão autoral em qualquer área, é justamente a troca franca entre a criação e a análise crítica.

http://www.estacaoletras.com.br/livros/livro67.php

Uma crítica de moda, se houvesse, faria pouco ou nenhum sentido se dirigida à moda genérica e produzida em grande escala. Em tese, ela estaria direcionada àqueles criadores que tem uma proposta particular, diferente das demais e que, também em tese, estariam interessados na discussão sobre alcance e limites do seu recorte singular.

Marcas que produzem para um gosto amplo, cuja habilidade principal consiste em detectar e aprisionar no produto qualidades já assentadas no gosto comum, não se enquadrariam como objeto de atenção. A marca autoral supostamente define o campo em que atua. Na medida em que ela põe em jogo questões que estão além do ordinário é que entra na mira do interesse crítico. O mesmo princípio vale para o criador ou marca que já apresentou algo de significativo anteriormente. Em ambos os casos, seja pela originalidade ou pelo peso das realizações, o ponto de partida já pressupõe algum nível de complexidade e qualidade. É só neste patamar que faz sentido falar em crítica.

A moda autoral é como uma tomada de posição, não está destinada a agradar a todos. Quem faz, supostamente, está ciente dos limites do que fez, conhece os biótipos que se encaixam, as subculturas relacionadas ao seu gosto, entre outros fatores. Nestes casos, a opinião negativa de uns geralmente funciona como reforço para o apreço de outros, consolidando a fidelidade dos adeptos de longa data e atraindo novos, em função da clareza de propósitos.

Se a marca arrisca-se a mudar de direcionamento para ampliar vendas, por exemplo, ou envereda por experimentações estilísticas fora do usual, é bem provável que neste momento a crítica identifique a guinada, aponte e avalie. Eventualmente isso pode acelerar uma alteração do status anterior. Para que este texto seja honesto, é preciso dizer que nestes casos uma crítica pode causar estragos. Mas esta possibilidade (a de que algo venha a ser afetado por opiniões) existe sempre e é parte inseparável da condição de toda coisa pública. Sejam quais forem os riscos, objetivamente, é mais produtivo ouvir o que outros tem a dizer do que fechar as portas ao diálogo.

Opto pela afirmação: o número de pessoas que deixaria de comprar um item de moda em função de uma crítica ruim é irrelevante, perto daquele que compraria a moda como ideia, ingressando no círculo de consumo dela, a partir da interação esclarecida com suas práticas e propostas. Coibir a crítica assemelha-se muito a evitar o esclarecimento do público, algo semelhante ao que é levado a cabo pelos regimes autoritários, que optam por não oferecer educação, temendo que os educados amadureçam e enxerguem a fragilidade dos pilares que os mantém onde estão. Outra analogia possível é com o despreparo emocional para ouvir o que não gosta. Neste caso, a moda comportaria como uma criança mimada ou um adulto que se recusa a crescer.

De fato, a falta de uma crítica (condição que em dado momento funcionou como um anteparo de proteção para o seu desenvolvimento) é hoje o calcanhar de Aquiles da moda, impedindo-a de amadurecer como atividade e evoluir como forma de expressão".

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