12 de março de 2017

Moda não é futilidade: uma reflexão sobre seu significado cultural

Perdi as contas de quantas vezes ouvi por aí, de pessoas diversas, que moda é futilidade. Como se a preocupação com moda significasse um consumo desenfreado, algo como ter 80 pares de sapatos e ainda querer comprar mais 80. Acho que temos na cabeça uma imagem de filme dos anos 1990, onde a patricinha rica compra todos os lançamentos de roupas e acaba não usando nenhum. Mas a moda que eu estudei por quatro anos não tem nada a ver com isso. Não é sobre consumismo. Aliás, se você compra roupas, sapatos e acessórios em demasia, saiba que isso é um tipo de compulsão que precisa ser tratada.

O termo moda não é significado de "futilidade". Até hoje ninguém o definiu com toda sua abrangência. Por outro lado, a compra desenfreada de roupas é um tipo de compulsão que precisa ser tratada.










No meu TCC em Produção de Moda, descrevi o termo "moda" utilizando como base a definição de três mulheres. A primeira delas é a jornalista Erika Palomino, que em seu livro A Moda, a define como um “sistema que acompanha o vestuário e o tempo, que integra o simples uso das roupas no dia-a-dia a um contexto maior, político, social, sociológico”. Depois usei ainda as opiniões de Valerie Steele e Marnie Fogg, presentes no livro Tudo Sobre Moda. Em comum, as autoras levam o termo para muito além do vestuário, englobando a cultura envolvida.  

Com o início da leitura do livro Moda, Uma Filosofia de Lars Svendsen, ainda me deparei com algumas outras definições abrangentes. Entre elas, destaco aqui algumas, como a do filósofo e sociólogo Georg Simmel, que defende que o centro de interesse da moda está nas roupas, mas ela é superior a isso, alcançado todas as áreas sociais. Outro filósofo, Gilles Lipovetsky, concorda, ao dizer que “Moda é uma forma específica de mudança social”, acrescentando que ela é caracterizada por um “intervalo de tempo particularmente breve e por mudanças mais ou menos ditadas pelo capricho, que lhe permitem afetar esferas muito diversas da vida coletiva”. Já o filósofo Immanuel Kant afirma que “Todas as modas são, por seu próprio conceito, modos mutáveis de viver”. O próprio Svendsen admite que é difícil dar total significado ao termo. Ele fala que pode tentar definir moda como alguma coisa que funciona “de maneira socialmente característica” e que faz parte de um sistema que substitui algo de modo rápido por um novo. Nesse ponto ele faz um adendo, dizendo que “A moda não precisa de fato introduzir um objeto novo; ela pode dizer respeito igualmente ao que não se está usando, como quando se tornou moda não usar chapéu”. Lars ainda fala sobre a expansão da área da moda, além da vestimenta, com o pensamento de Gadamer, que diz que “Até na práxis do trabalho científico existe ‘moda’”. Ele admite, porém, que “a palavra soa horrivelmente mal em conexão com a ciência, pois evidentemente gostaríamos de acreditar que esta é superior ao que meramente promove a moda”. O termo moda é menosprezado porque por anos é ligado à superficialidades.

Moda e comunicação andam juntas. Através das vestimentas, podemos entender mais sobre a identidade de quem as usa.












O que percebemos aqui é a dificuldade que muitos pensadores tiveram em esclarecer a palavra e tudo o que ela alcança. Mas futilidade não se encaixa nas tentativas de explicá-la. A verdade é que ninguém ainda definiu moda com todos os significados que ela abrange e isso me parece uma tarefa muito distante de se concretizar. Moda é sobre roupa também, mas nos conta sobre a história do mundo, nos apresenta características de uma sociedade e peculiaridades de um povo. Enquanto roupa, ela é instrumento de proteção, mas também é adorno: a necessidade de chamar a atenção ou de simplesmente se enfeitar está enraizada na humanidade. Pode ser arma de protesto, de resgate de cultura, assim como pode ser indicativo social. A roupa é uma necessidade. Mesmo que você não goste de seguir as tendências que a indústria (tem mais essa esfera para acrescentar em sua definição: a industrial) dita, ainda assim você está envolvido com moda: usar peças que contrariam o “must have” da estação, ser um antimoda, ainda é usar a moda como ferramenta disso tudo. Não tem como fugir dela. O próprio Svendsen defende que “No mundo ocidental, até os mais pobres estão incluídos no universo da moda na medida em que são conscientes de que não podem ter grande participação nele. Estar excluído do jogo, e ter consciência dessa exclusão, é estar dentro de sua esfera”.

Só para complementar, se buscarmos a etimologia da palavra moda, ela vem do latim modus, que significa medida, ritmo, maneira. Fashion, seu equivalente em inglês, deriva do latim facere, que significa fazer. Por ser palavra inglesa, teve sua origem na palavra francesa façon, que significa “maneira, moda, aparência, característica”.

Termino ainda usando citações de Fogg, que nos diz que com o tempo a moda “passou a expressar valores tão diversos como conformidade e relações sociais, rebelião e excentricidade, aspiração social e status, sedução e encanto". Ela também sustentou sua opinião de que a moda de vestuário está ligada a outras linguagens com essa frase: “Não é só por meio da escolha das roupas que moldamos nossa aparência, mas também com penteados, linguagens corporais e comportamentos específicos". Logo, pode-se concluir que na opinião da autora moda é um termo dotado de vários significados, que envolvem política, artes e outras diversas esferas da vida.

Citações extraídas de:
*A Moda – Erika Palomino
*Tudo Sobre Moda – Vários autores (citei Fogg e Steele)
*Todas as citações de filósofos foram retiradas do 1º capítulo do livro “Moda, Uma Filosofia”, de Lars
Svendsen.

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