29 de junho de 2016

Uma breve análise sobre a mudança no consumo de moda

Estamos finalmente ouvindo nosso planeta. Desde a época de Uma Verdade Inconveniente, documentário do jornalista e político Al Gore, somos frequentemente avisados sobre os impactos ambientais de nossas próprias ações. A produção de lixo do nosso país aumentou 29% entre 2003 e 2014, o que equivale a cinco vezes mais que o crescimento populacional (que nesse mesmo tempo subiu 6%), com dados da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe). O problema é que apenas 58,4% desse lixo que produzimos tem o descarte adequado em aterros sanitários, o restante vai parar em lixões, o que traz um tremendo risco a nossa saúde. Na moda, as coisas não são diferentes. Segundo o SEBRAE, o Brasil produz por ano 170 mil toneladas de retalhos e 80% desse material vai parar nos lixões do país. Esses prejuízos tem influenciado na nossa maneira de consumir no geral, embora nesse artigo o destaque seja a compra de artigos de moda.

Além da parte da sustentabilidade, estamos nos tornando mais conscientes porque tomamos conhecimento de fatalidades como o trabalho escravo, por exemplo, pratica que assola a moda. Nossas roupas bonitinhas (embora descartáveis) de fast fashion, por vezes importadas da China, que permitem termos um guarda-roupa abarrotado de coisas que não usamos, muitas vezes vem da exploração de trabalhadores. Um artigo do Washington Post divulgou que cerca de 36 milhões de pessoas são escravas no nosso mundo atual, sendo 26% delas crianças.

Para se ter uma ideia, vou citar alguns casos de escravidão contemporânea aqui no Brasil: em 2011, trabalhadores estrangeiros produziam peças para a Zara sob condições ilegais, como trabalho infantil, jornada de 16h por dia, desconto irregular dos salários e proibição de abandonar o local de trabalho.  A Renner também foi condenada pela exploração de 37 costureiros bolivianos em 2014 e em 2010, 16 bolivianos e um peruano foram encontrados trabalhando com costura de maneira irregular para a Marisa; esses dois últimos casos com suspeita de tráfico de pessoas. “Há registros de salários de R$ 202 e de R$ 247, menos da metade do salário mínimo (na época, R$ 510)”

Em 2013, fomos confrontados com a notícia do desabamento de uma fábrica de tecidos (Rana Plaza) em Bangladesh, onde 1.100 pessoas morreram. O local não respeitava as normas de segurança básica do país.  
  
Por causa disso, surgiram técnicas como o slow fashion, o armário-cápsula e o consumo consciente. E com eles, ideias de como reutilizar e reformar peças, o incentivo à troca de roupas ou a fazer compras em lojas locais, de quem faz e reaproveita. Adquirir de brechós ou se atentar a etiqueta do produto, ao tecido, e aos preços justos cobrados pelas peças são outras maneiras de melhorarmos nosso consumo. Eventos como o Fashion Revolution incentivam a usar roupas do avesso, mostrando a etiqueta, e nos ensinando a questionar lojas para saber de onde vêm nossas peças. Podemos também monitorar lojas por aplicativos como o Moda Livre (disponível para Android e IOS) e saber se elas estão livres de trabalho escravo. Aqui vale lembrar que muitas marcas não tem total controle sobre sua cadeia de produção, casos como fábricas legais terceirizando fábricas ilegais já ocorreram. Outra iniciativa é o Banco de Tecidos, onde todos podem depositar sobras de tecidos que serão recolocados no mercado. Apoiar novas marcas que surgem com toda uma preocupação com o meio ambiente, dando valor ao artesanal, pagando dignamente as costureiras e bordadeiras, também é uma saída para quando necessitamos de algo novo.

Do outro lado da moeda, as lojas de departamento vêm perdendo clientes, não só por não entenderem a nova necessidade da população, que é o consumo consciente, mas também porque a geração millennial (nascidos entre os anos 80 e 2000) tem outras prioridades. 

Com informações do InfoMoney, 44% da população ativa em 2025 será de millennials e o consultor de indústrias de varejo Robin Lewis acredita que que eles ameaçam as vendas por serem maiores “que os boomers em população, mas suas carteiras são menores, e eles gostam mais de estilo de vida do que de coisas na vida”. Pesquisas revelam que esses novos consumidores realmente preferem a experiência no lugar do consumo. É melhor vivenciar um show do que comprar a nova bolsa sensação. Além disso, suas decisões são permeadas pela internet. O consumo é feito em grande parte em lojas online, onde é fácil perceber a qualidade do produto através de avaliações de outros compradores e comparar preços. Outro ponto é a volta da propaganda boca-a-boca: melhor que qualquer comercial, o bom mesmo é receber indicações de quem já tem o produto, seja um amigo ou um blogueiro de moda.


Um estudo da Goldman Sachs mostrou que nós, os millennials somos globais, conectados, queremos experiências, estamos em multicanais seja online ou offline e somos compradores inteligentes. Aprendemos a usar a técnica de calcular o custo versus o benefício. A pesquisa ainda afirma que não nos importamos em pagar mais caro por marcas que estão de acordo com o que acreditamos. 71% dos millennials brasileiros acreditam que podem fazer a diferença no mundo. E nós estamos lutando para isso.

Esses fatos, somados à crise econômica atual e o aumento do desemprego, tem feito shoppings se esvaziarem. Aqui em Sorocaba, dois centros de compras fecharam (Vilàggio e Plaza), um sobrevive graças a redes como Decathlon e Assaí (Panorâmico) e o shopping Cidade sofre com o fechamento de diversas lojas. 

As lojas de departamento poderiam vender mais se não fosse essa incapacidade de fornecer alternativas sustentáveis. As principais marcas mundiais não conseguem, por exemplo, fornecer algodão sustentável. Sobre isso, uma pesquisa publicada na WWF revelou que somente sete empresas, dentre 37 que são monitoradas, saíram da zona vermelha (onde nem começaram a fazer algo para mudar o quadro) para a amarela e a laranja (que estão no início das mudanças ou já caminhando) e apenas uma está na zona verde (que conseguiu): a Ikea.

O grande desafio dos lojistas agora é a inovação. Já que os millennials querem vivenciar em vez de consumir, que tal unir um ao outro? Levá-los para dentro das lojas para viverem um momento especial é uma saída. Oferecer, ainda que a preços mais altos, tecidos e modelagens de qualidade, duráveis, com condições dignas de trabalho é outra. Se engajar na questão sustentabilidade e criar ações participativas para os clientes em relação a isso, também pode ser uma boa opção. O que dá para perceber é que não queremos mais viver comprando tudo quanto é tendência e muito menos pagar por algo que não confiamos ou que não nos acrescentará em nada. 

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